Opinião – Memórias laurentinas

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JOÃO BOAVIDAJoão Boavida

Saiu há tempos uma obra muito interessante de Eugénio Lisboa, (Acta Est Fabula, Memórias I – Lourenço Marques, 1930 – 1947. Guimarães, Opera Omnia, 2012 ), dedicado tão sentidamente à cidade de Lourenço Marques que chega a agradecer-lhe o “ter existido para eu ter podido nascer nela”. Escritas para gozo pessoal do autor, como diz, acabam por ter interesse a vários níveis. Sem grande preocupação formal prevalece, porém, a qualidade do seu estilo rico, dinâmico, enredado e cativante, numas memórias vivas, sentidas, luminosas, quentes, e cheias de motivos para meditar.

Eu não vivi na Lourenço Marques daqueles tempo, mas consegui sentir o clima, as cores, os cheiros, os mercados indígenas, o Índico e suas praias, os baldios do futebol, os dias imensos das férias, em suma, essa sedução de África que a todos toca. Assistimos ao seu despertar para a vida, ao nascimento da consciência crítica, às evidências da estratificação social, que ele (e família) sentiram, tendo um estatuto algo ambíguo entre o musseque e a Polana, o povo e os snobs, um pouco estrangeiro, pela sua modéstia, entre os meninos do liceu. Mas suficientemente inteligente para ouvir o ímpeto da sua vontade e perceber a sua superioridade em relação aos colegas. E capaz de desenvolver a força do seu sonho de futuro, intelectual, cultural e científico numa Europa então mítica, e empolgado pela ideia de uma missão pessoal, indefinível, mas corrente entre os adolescentes mais dotados. Assim, a sua condição de branco, vivendo longe da zona fina da cidade, acabou por lhe proporcionar uma multiculturalidade formadora e estruturante, sem ressentimentos porque a própria inteligência e sucesso escolar o impediram, e capaz de tirar dos dois lados o melhor de cada um, superando-os.

Muito interessante a galeria dos “seus” professores, o rigor e humanidade com que os descreve, mostrando-nos como os grandes professores marcam a nossa vida de uma maneira indelével e são os esteios de que podemos vir a ser mais tarde. Páginas de ternura agradecida para alguns dos seus melhores professores, e outras críticas para com os incompetentes, os balofos e os pérfidos, que também os havia, como se sabe.

Finalmente, é muito útil seguir a descrição do seu itinerário literário, o gosto pelos livros e o pouco dinheiro para os comprar, o “namoro” das montras das livrarias, o aparecimento dos autores na sua vida e as marcas numa personalidade em formação: Herculano, Garrett, Júlio Dinis, e depois e sobretudo Stendhal, e os americanos, Mark Twain, Hemingway, Faulkner, Sorayan e de novo os europeus, Óscar Wilde, Gide, Proust, Roger Martin du Gard, George Eliot, Dickens, Charlotte Brontë, e José Régio, claro! E a consciência crescente desse campo riquíssimo, contraditório e inesgotável que é a grande literatura. E a perturbação de certas obras, a influência fecunda numa personalidade em formação.

É muito interessante ver como reconhece a importância que os grandes autores tiveram na sua formação. Pudera! Todo o livro é a veemente afirmação disso. “Diz-me o que lês (ou leste) dir-te-ei quem és” é uma das grandes verdades da educação. Estranho é que haja gente com responsabilidades que não o saiba. A profundidade humana, a riqueza e a complexidade das pessoas e das situações, os dramas, a experiência condensada que proporcionam, a libertação pela imaginação, a fruição da beleza e a plenitude que as grandes obras proporcionam, como se pode formar um ser humano sem tudo isto? E como é que tal riqueza e experiência se podem substituir por resumos e outros sucedâneos que por aí andam? Que até podem dar boas notas, mas que deixam pelo caminho seres sem profundidade nem densidade, eternamente “inocentes”, mas convencidos, imaturos mas logo cediços, e acima de tudo indiferentes à beleza e sem perceberem o tudo que perdem. Nada substitui a leitura dos grandes mestres, como é possível que tanta gente “responsável” o não saiba?

 

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