Opinião – Que emigrantes?

Posted by

Joaquim Valente

Joaquim Valente

Dados do INE (Instituto Nacional de Estatística) revelam que em 2011 saíram de Portugal, 43998 pessoas, entre as quais 4107 crianças com menos de 15 anos e 3315 com idades entre os 15 e os 19 anos, são crianças que deixaram o País acompanhando o respectivo agregado familiar, abandonando por isso o sistema de ensino em Portugal.

No entanto o Governo Português não sabe ao certo para onde vão essas crianças, se continuam ou não os seus estudos e formação, se sentem dificuldades na integração, etc. ou seja o governo está a perder o “rasto” a estas crianças que diariamente nos deixam.

As crianças estão a sair paulatinamente de Portugal sem que o governo dê por isso, abandonando as escolas tão discretamente que nem os próprios professores se apercebem do facto.

O que responde o governo perante isto? Que responsabilidades têm perante o País e as instâncias internacionais dos Direitos das Crianças? Que futuro nos vão deixar?

A outra face da moeda que é grave é o determinismo da emigração como uma das “curas” para o desemprego.

Já neste ano, por exemplo no Luxemburgo, provavelmente em diferentes anos de escolaridade entraram pela primeira vez cerca de 500 alunos Portugueses, e em Macau os próprios professores locais estão admirados com o número de pedidos de ingresso escolar de crianças portuguesas.

São filhos de jovens casais desempregados ou com ausência de perspetivas de carreira no nosso país, que desistem já de Portugal e partem decerto para nunca mais voltarem!

O que significa então o governo dizer que vai lutar e não desistir de Portugal, se depois na prática e no dia a dia nos deparamos com estas tristes realidades?

As crianças quando chegam ao país de destino, deixando para trás os professores de sempre, os amigos, a família têm tido graves problemas de integração socio-afetiva, porque não conhecem a língua, mas o instinto de sobrevivência fala sempre mais alto!

E assim se vão as Marias, as Anas, os Carlos deste país, que dizem ter já saudades do sol, do mar, dos avós, cedendo a um governo que os manda emigrar e que nem sequer se preocupa com aquilo que lhes acontece depois, e em nome do combate à crise opta-se por uma amputação do melhor do futuro de Portugal: as suas crianças e jovens, a nova geração que alguém já chamou de “sem futuro”.

São mais que evidentes as consequências de tais políticas a nível demográfico, económico, social e até cultural e vamos cada vez mais ficar na periferia das periferias, com um país sem “sangue novo”, com uma economia destruída e o país eternamente assistido por uma Europa, que nos dará uns trocos se nos portamos bem.

Os cidadãos querem um Estado educador que assuma perante a sociedade a responsabilidade de educar e formar as novas gerações, com a ideia da educabilidade como instrumento da construção da identidade nacional que não é incompatível com a crise e a escassez de recursos.

Mesmo os economistas mais liberais com o Adam Smith e Stuart Mill reconheciam a necessidade de o estado através da escolarização criar condições de mobilização impulsionadores das mudanças estruturais sociais e económicas.

Neste mundo virado do avesso que cada dia nos surpreende, um exercício de análise e reflexão destas e doutras realidades, nesta Páscoa da Ressurreição é um imperativo nacional.

 

One Comment

  1. Estou a viver o momento mais angustiante da minha vida. Tenho 63 anos e tenho dois filhos, nascidos e criados na cidade da Guarda, um dos quais, depois de centenas de tentativas, durante dois anos, para arranjar colocação como enfermeiro, em todo o territorio Português, teve de desistir da terra, dos pais, da irmã, da namorada, de toda a família e dos amigos e rumar para um país longínquo, o qual desconhecia, assim como a sua língua,para ali exercer a sua profissão . Adivinho as sérias dificuldades que ele está a enfrentar para além da tristeza que levou ao ver ficar para trás tudo aquilo que ele mais ama na vida.Está a ser uma batalha muito difícilpara mim, cada dia que enfrento é uma angústia dilacerante e revoltante.Não consigo de forma alguma conformar-me com esta cruel realidade: O meu filho para poder tirar partido do curso que fez no seu país, teve que desistir de tudo o que o fazia um jovem feliz e prestar o seviço no estrangeiro.

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

*

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.