Opinião – Faleceu um mecenas da cultura

Posted by

MÁRIO NUNESMário Nunes

A comunicação social conimbricense quase não falou na morte deste mecenas da cultura. E, nós soubemos do seu falecimento, a passada semana, por alusão feita num jornal, onde se referia a missa rezada no dia do funeral a que assistiram diversas personalidades e se ouviu a Canção de Coimbra. Por isso, é nosso dever evocar, neste “nosso” jornal, a memória de Victor Ramos, dada a sua entrega à causa cultural e paixão pela sua cidade, porque evocar é trazer até nós, atravessando a cortina que o tempo tece, alguém que cruzou a nossa vida, a sociedade, o mundo e nos merece respeito e admiração.

Nesta época sombria, angustiante e fútil que atravessamos em que a lembrança que fica de alguém, após a morte, se esvai e desaparece tão rapidamente como uma bola de sabão, impõe-se registar em letra redonda a memória deste empresário, artista plástico e conimbricense de gema, que dedicou uma parte da vida a semear o bem e a alimentar o progresso cultural, apoiando e fomentando as artes plásticas e as letras. Pessoa humilde, devotado bairrista e defensor e divulgador incansável da sua Coimbra, marcou indubitavelmente a cultura, como mecenas incorrigível.

Victor Ramos faleceu. A cidade e a cultura ficaram empobrecidas porque este natural de Santo António dos Olivais jamais esqueceu o torrão natal e as suas gentes, transportando na sua paixão a grandeza da sua cidade que levou a todo o lado. Um senhor que buscou na arte, o veículo de ocupação dos tempos livres, privilegiando nos seus trabalhos e nas exposições o esplendor da urbe do Mondego.

Nós, como tantos cidadãos nacionais e estrangeiros, que privaram com Victor Ramos, reconhecemos perante a efemeridade da vida, que este conimbricense soube entender que a amizade e a ajuda ao semelhante constituem dádivas sem preço, sendo o elo forte da ligação que une os homens. E, Victor Ramos, como o conhecemos e do que dele ouvimos falar, pautou a sua caminhada terrestre por praticar um comportamento exemplar de doação aos outros, cumprindo, por prazer, uma missão altruísta e cultural que residia na sua postura de íntegro cidadão. Se a pintura lhe prendia uma parte do tempo, a solidariedade que abraçava fazia-o respirar mais saudavelmente como bom samaritano que não escolhia as pessoas para auxiliar o próximo. E, os artistas podem testemunhar esta sua qualidade, pois a canção de Coimbra e a arte preenchiam serões culturais, em Lisboa e noutras terras e muito especial e amiudadas vezes na Marinha Grande, onde vivia e onde mantinha uma importante relação com o Município, unindo as duas cidades. Diversas vezes participámos em jornadas organizadas a expensas suas e em que se exaltaram a mística, a universalidade e as riquezas materiais e imateriais de Coimbra, tendo sempre importantes individualidades a assistir. A doença minou-o durante alguns anos. Mas, esta infelicidade jamais reduziu a sua resistência e dinamismo na prática das suas actividades em prol dos outros.

Neste texto de saudade e de gratidão pelo que fez pela cultura e pelos necessitados, resta-nos recuperar o seu passado de mecenas e recolhermo-nos, respeitosamente, perante a sua memória. Paz à sua alma.

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

*

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.