Opinião – “Dê-me esmola, por favor”

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LUÍS PARREIRÃOLuís Parreirão

Final da manhã na cidade. O frio e a chuva fustigam tudo e todos. Um homem dirige-se-me e diz, digno e direito, “dê-me esmola, por favor”.

Não, não se tratava de um jovem nosso concidadão dominado pelas drogas.

Não, não era um imigrante perdido num país distante do seu e sem o suporte da família.

Não, não tinha um ar descuidado ou andrajoso.

Não, não parecia tocado por qualquer fragilidade psíquica.

“Apenas ” é pobre, ou ficou pobre, e pede esmola!

Lembro-me bem, quando era miúdo, e noutra cidade do mesmo país, de ver as pessoas a pedir esmola. Lembro-me, até, de ouvir dizer aos mais velhos que este ou aquele “andavam a esmolar”; era essa a sua vida.

Acreditei, acreditámos todos certamente, que esmolar teria passado a ser um verbo para uso na literatura, com o sentido figurado que só aos escritores é possível, e que nunca mais o conjugaríamos no sentido literal, no sentido em que o vi usado nos anos sessenta do século XX.

Enganei-me!

E como dói, neste caso, ter-me enganado.

Estranha sociedade a nossa em que de um momento para o outro o Estado que apoia e ajuda desaparece e o Estado que cobra e confisca se moderniza!

Estranha sociedade a nossa em que, pela primeira vez no percurso da humanidade, as expectativas dos filhos são menores que as dos pais!

Estranha sociedade a nossa em que a pobreza, a tristeza e a raiva passam por nós na rua, mas nessa rua já não passam os principais responsáveis políticos do país!

Estranha sociedade a nossa que, omitindo a memória da escravatura, negando o sentido do caminho da humanidade, e passando por cima da Declaração Universal dos Direitos do Homem, inventa a precariedade e, mais preocupante, vê nela virtualidades!

Estranha sociedade a nossa quando homens dignos e direitos pedem esmola!

O frio e a chuva continuam a fustigar a cidade. A pobreza, a incerteza e o abandono começam a destruí-la!

 

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