Fio de prumo – A Europa ainda existirá?

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LUÍS PARREIRÃO

Luís Parreirão

Porventura nunca um país tão pequeno conseguiu exprimir a situação da Europa como Chipre o conseguiu fazer nos últimos dias.

Confesso a minha perplexidade perante a incapacidade de previsão, de antecipação e de pronta decisão que os dirigentes europeus evidenciaram.

Acho mesmo legítimo questionarmo-nos se teremos hoje a Europa dirigida por políticos, ao serviço de políticas, ou se, pelo contrário, estamos entregues a uma tecnoestrutura que não ousa, não antecipa, não sonha e não decide. Pior, que não tem, nem pretende ter, mandato popular e que, por isso, também não tem que prestar contas, no sentido em que se prestam contas para obter a renovação da confiança.

Chipre instila-nos, de facto, algumas perplexidades sobre esta europa!

Ora vejamos:

Parece que temos uma Europa Distraída. Foi necessário aquele país chegar à ruptura financeira para a Europa perceber que um país da U E e da Zona Euro é, afinal, um offshore que acolhia abundantes capitais de outras geografias.

Teremos também uma Europa Sem Ideologia e que esquece os seus princípios fundadores. É no mínimo preocupante que toda a situação se tenha precipitado quando o país deixou de ter um presidente comunista para passar a ter um presidente pró europeu.

Confirma-se que a Europa dos cidadãos e das empresas foi substituída pela Europa da Finança. Ninguém questionará a necessidade de equilíbrio das contas públicas e da solvabilidade do sistema financeiro. A questão é saber se as contas públicas e o sistema financeiro estão ao serviço das pessoas e das políticas, ou se é o contrário.

Pelos vistos passámos também a ter uma Europa do Ridículo! Ver, como todos vimos, os ministros cipriotas a voar para Moscovo e, sobretudo, ver uma empresa, no caso russa, a propor-se “salvar” um país da zona euro, expõe os dirigentes europeus a um fatal ridículo.

Confirma-se que hoje temos uma Europa Cobarde. De facto, ao fazer ultimatos a Chipre do mesmo passo que tudo importa de países onde o trabalho infantil pulula e o “estado social” é uma longínqua miragem, a Europa assume que é forte com os fracos e fraca com os fortes.

Confirma-se ainda que temos hoje uma Europa Decapitada. Ao atribuir permanentemente à Alemanha a fixação pública das posições europeias, as suas instituições – Conselho, Comissão e Parlamento – parece quererem fazer a demonstração da sua inexistência e/ou inutilidade.

Poder-se-á dizer que estamos no domínio do simbólico. Acontece que a dimensão simbólica da acção política assume sempre importância determinante.

O que se tem passado a propósito de Chipre parece simbolizar o desagregar da Europa naquilo que ela tem de mais essencial: as dimensões da cidadania, da solidariedade intra-europeia, e da autoridade que resulta da defesa de valores essenciais.

E agora, Europa?

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