Opinião – O Carnaval e a morte do Galo

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Joaquim Valente

Joaquim Valente

As festas populares têm uma origem ritual e mágica cujo significado já se perdeu, mas que nos ajudam a reconstruir o passado e a explicar certos aspectos culturais. O povo vê nessas práticas uma maneira de festejar, misturando por vezes os ritos pagãos e as festas religiosas, resultando interessantes sincretismos, e as festas cíclicas pagãs relacionam-se principalmente com as épocas do ano da qual dependem os trabalhos agrícolas.

A vida rural está relacionada com o desenrolar das estações e com os fenómenos meteorológicos que lhe estão associados, segundo as épocas de chuva e do calor.

Para exprimir a diferença entre a cidade e a aldeia, empregam-se expressões como: “Aqui tudo parece adormecido, e o tempo parou”, mas na realidade cada grupo social tem a sua própria noção do tempo, porque a noção de tempo no meio rural é a espera, enquanto nas cidades e nos meios industriais, o tempo desenrola-se como espiral.

Na sabedoria aldeã, os astros são os senhores do tempo donde o Sol e os símbolos solares terem um grande peso nas sociedades rurais, porque a ele são atribuídas as funções que competem normalmente ao pai, simbolizando o controlo sobre o cosmos É assim a festa do Carnaval que pertence às chamadas festas de fim do Inverno, ligando-se à renovação e ao renascer da fauna e da flora para o ciclo da Primavera, terminado o Inverno.

Os ritos carnavalescos representam a transgressão dos costumes, excessos e liberdades durante determinado tempo, corte abrupto nas rotinas das comunidades, uma espécie de catarse colectiva e o povo apropria-se destes rituais para a expressão da socialização. O Carnaval ou Entrudo como preferem os camponeses, significa uma libertação, uma representação da morte de tudo o que existe, um renascimento colectivo e o galo símbolo do poder e de domínio, é utilizado para estes ritos de celebração. O galo representa o poder, a autoridade e a fecundidade, mas canta ao amanhecer quando um novo dia começa, porque o cantar fora deste ciclo pressagia má fortuna.

A sentença e morte do galo e o julgamento público é um ritual de expiação, expurgando culpas individuais e colectivas, imputando ao galo a responsabilidade por todos os desmandos acontecidos ao longo do ano.

Até à década de 70 na cidade da Guarda, os ritos de Carnaval limitavam-se às simples saídas à rua de grupos isolados de mascarados, que mimoseavam os transeuntes com esguichos de água e serpentinas, com críticas políticas e sociais que levaram a multas e proibições e ao desaparecimento das celebrações, o que estava em conformidade com o “cinzentismo salazarista.

Na Guarda, por iniciativa da Câmara recuperou-se esta tradição secular, tão enraizada no gosto das pessoas da Beira, dando espaço às associações culturais da nossa região e numa participação activa a Culturguarda levou a cabo a encenação deste complexo cerimonial, de acusação, defesa e sentença do galo, perpetuando assim uma das mais antigas tradições.

É admirável como as pessoas de todas as condições sociais participam activa e espontaneamente nestes rituais como se de uma necessidade intrínseca se tratasse!

Em tempos que só nos falam em “economês” e numa fase tão difícil ~para a maioria dos Portugueses o Carnaval e os festejos do galo terão um duplo significado e no dia 11 de Fevereiro à noite, na Guarda há um Carnaval genuinamente Português e de inspiração tradicional – O julgamento e morte do Galo de Entrudo, no qual o povo julgará o Galo.

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