Opinião – Desafios do futuro

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01 NORBERTO PIRESJoaquim Norberto Pires

Estou a escrever estar crónica com o relatório do FMI, encomendado pelo Governo, ao meu lado. Este relatório, do qual falarei na próxima semana depois de o ler e de reflectir sobre o que propõe, é bem a imagem do Portugal. Um país com imensas possibilidades, com gente capaz e trabalhadora, uma excelente qualidade de território, com uma biodiversidade muito rica, com uma diversidade territorial muito bonita e que abre imensas oportunidades, um povo hospitaleiro, com bom coração e capacidade de sofrimento, mas que tem sido incapaz de se mobilizar, organizar e de se posicionar na história, no presente e no futuro.

O aperto em que vivemos e a vergonha de vermos outros a elaborar relatórios com medidas de emergência são bem a imagem da falência do país como uma organização. Não é só o Estado. É todo o país que está em causa, ou seja, somos todos nós, é a nossa identidade, é o nosso brio e orgulho, é um pouco o merecimento da nacionalidade e da independência que também está a ser posto à prova.

Quem vai resolver os nossos problemas somos nós. Ou o fazemos depressa e bem, ou isto será um evento terminal. Não é um drama, mas é preciso que estejam conscientes disso. É altura de intervir. É altura de perceber que o país precisa da sua ajuda, que é necessário romper com o ciclo de desânimo, recuperar a vontade das populações, dizer-lhes que existem pessoas competentes e sérias que sabem o que fazer, que querem e não prescindem de fazê-lo colectivamente. É preciso perceber de imediato que ter consciência disso é um imperativo nacional.

Eu acredito que parte da solução para Portugal está num renovado e reinventado poder autárquico. Um poder que esteja mais próximo das populações, que se preocupe com os seus problemas, que crie condições de aproveitamento das potencialidades de cada terra, que seja capaz de sinergias com outras terras de forma a criar escala, que dinamize a actividade económica e empreendedora, que dinamize os recursos naturais e culturais, aposte nos produtos endógenos, aposte no reforço da educação, fale ao coração das pessoas e lhes diga que é possível fazer muito melhor, com menos dinheiro e de forma sustentável.

Eu coloco o foco na organização descentralizada, num modelo que temos de aprender a construir passo-a-passo, que se baseie numa partilha de responsabilidades de forma que as pessoas sintam que têm influência no seu futuro. Isso é fundamental para que sejam mobilizados os seus melhores esforços, mas também para que possam ser responsabilizadas pelo seu imobilismo e desinteresse, ou premiadas pela sua acção empreendedora.

Existem bons exemplos de gestão autárquica rigorosa, focada no interesse das populações, que procura identificar oportunidades de desenvolvimento económico e social, que coloca o foco na cultura, na educação, no estabelecimento de pontes com municípios vizinhos, na partilha de recursos e equipamentos, na concertação activa de posições com o objectivo de garantir o bem-estar para as populações que servem. É Portugal que está em causa.

 

(artigo também publicado no re-visto.com)

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