Opinião – Paradoxo da memória no 1.º de Dezembro

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Mário Nunes

Necessário aumentar os dias de trabalho para quem trabalha. Que fazer? Olhou-se a lista dos feriados nacionais e com um traço forte de caneta ou uma passagem do cursor do computador sobre as datas, resolveu-se o assunto. Sem qualquer preconceito político de ferir a história nacional e sem consulta ou discussão eliminaram-se o 5 de Outubro e o 1º. Dezembro. Será que não houve tempo para analisar os contornos da decisão e o significado dos acontecimentos que motivaram a criação daqueles feriados e faltou alguém de memória grata para validar as datas.? E, pronto: assunto encerrado. Legislar.

E, os feriados religiosos? A Igreja estudou o tema. Debateu as implicações da eliminação, consultou o Vaticano e deliberou suspender por cinco anos (não eliminar) os feriados do Corpo de Deus e Dia de Todos os Santos. Prudente, realizou o debate, que faltou ao Governo. Um processo democrático que apenas suspendeu, talvez para ver o resultado futuro.

No passado sábado, Penela concitou a atenção, sobretudo, concelhia, em duas importantes iniciativas: “homenagem ao ex- Provedor da Misericórdia, Dr. Manuel Ramos, justificando-a pela dedicação voluntária durante 24 anos, à causa da Santa Casa penelense; “Feriados em Portugal, História e Polémica”, comunicação do Prof. Doutor Reis Torgal, ação inserida na programação do Centro de Estudos de História Local e Regional Salvador Dias Arnaut. Participámos nos dois significativos momentos e deles retirámos as ilações que titulam este texto: paradoxo da memória.

Nos tempos difíceis que preenchem a vida dos cidadãos, em que o individualismo, o egoísmo e a ambição sem regras são atitudes do dia – a – dia, em que o tempo não sobra para olhar para o semelhante e reconhecer o trabalho válido que, sem contrapartidas, oferece à comunidade e sociedade, é saudável encontrar cidadãos e instituições que, na hora da gratidão, se perfilam com alegria para homenagear ou dizer um sentido obrigado aos que muito fizeram e ofertaram aos outros e nada receberam, somente, quantas vezes, incompreensão, injúria e mesmo afronta à sua dignidade. O ato sublime e público da Misericórdia de Penela a Manuel Ramos, que juntou quase meia centena de pessoas e entidades de diferentes setores da área social, cultural, religiosa e política, testemunha que, afinal, ainda prevalece a memória gratificante e não o esquecimento pessoal e institucional.

A eliminação do feriado do 1º Dezembro ventilada na sessão por Reis Torgal, é precisamente o oposto da homenagem ao ex-Provedor, ou seja, houve o esvaziamento da memória individual, coletiva e histórica e impôs-se o esquecimento e ou mesmo ignorância dos valores pátrios, que estiveram na “ideia de nacionalidade, quando da restauração da independência plena de Portugal

( 1640 ) após sessenta anos de monarquia dualista. Cinco séculos de governo próprio que haviam forjado uma nação” (Oliveira Marques, in, História de Portugal, p.436 ).

Não passou, nosso entendimento, pela mente dos responsáveis políticos, qual a grandeza deste dia glorioso para a nação. E, sem qualquer rebuço, sem discussão pública ou reflexão das posições assumidas por cidadãos de todos os quadrantes nacionais, olvidou-se o significado do dia, restando para a posteridade os registos em compêndios da história de Portugal. Para eles esvaíram-se as razões que provocaram os atos de generosidade patriótica dos portugueses daquela época. Amanhã comemora-se oficialmente o derradeiro 1º de Dezembro.

As duas atitudes de Penela permitiram analisar o paradoxo da memória: a gratidão por um lado; o esquecimento por outro. E, assim, se equacionam os valores da atual sociedade portuguesa.

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