Diário de Cernache – “Os nossos moradores são muito exigentes”

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Cernache sente-se mais de Coimbra ou de Condeixa?

Claramente, sinto-me mais de Coimbra do que de Condeixa.

Apesar de estar mais perto da sede do concelho de Condeixa?

Sim. Esta é uma freguesia de Coimbra e nós sentimo-nos bem com essa decisão.

Mas nunca houve essa tendência de puxar esta freguesia para Condeixa?

Já tem havido conversas sobre essa matéria, mas os nossos moradores estão mais ligados umbilicalmente a Coimbra do que a Condeixa.

Como tal, é um dormitório de Coimbra?

Sem dúvida alguma. E com alguma qualidade habitacional. Basta ver a quantidade de vivendas construídas nos últimos anos na freguesia.

Neste momento, quantos habitantes tem a freguesia?

Cerca de 6.000 habitantes. Embora não estejam todos recenseados, pois alguns também têm casa na sede de concelho, noto que muitos dos nossos habitantes são pessoas da classe média alta.

Isso foi também um desafio para a gestão autárquica da freguesia?

Exigiu muito da nossa parte. Desde logo, porque são moradores muito mais exigentes.

Uma situação que se alterou com a crise?

É verdade. Basta olhar para o placar da junta e ver a quantidade de licenças de construção a caducar por não levantamento dos empreiteiros. Uma delas é a da Quinta da Boavista que já tem as infraestruturas prontas e que não vai arrancar devido à crise. Outro dos exemplos é a Urbanização do Sol Nascente.

Para quem assistiu a este crescimento, a crise foi um sério revés para Cernache?

Como é óbvio. Mais habitação significaria mais habitantes, o que para Cernache seria muito bom. Até porque a freguesia tem muito para crescer. Alguns deles mereciam mesmo estarem urbanizados.

Que percentagem da freguesia está coberta pelo saneamento?

Quase toda. Só há um ou outro foco onde não existe essa ligação por falta de condições. Situação idêntica acontece com o abastecimento de água. Nestes dois aspetos, posso dizer que a freguesia está bem servida.

De que equipamentos necessita a freguesia?

Por exemplo, precisávamos de um lar e de uma creche da rede pública. Na área da freguesia, temos um centro de dia da Caritas Diocesana e dois lares privados, mas da rede pública, propriamente dito, não dispomos de nenhum equipamento deste género. Ainda tentamos aproveitar o pavilhão anexo à junta para este tipo de equipamento, mas foi-nos dito que essa não era a nossa função. Aliás, a Caritas é uma das entidades que está a suprir as carências sociais da freguesia.

Isso quer dizer que, apesar deste aumento habitacional, a média de idades dos moradores é alta?

Sim, temos uma população bastante envelhecida. E quando eu falo em lar, refiro-me a um espaço que possa servir esta população envelhecida da freguesia.

Que projetos gostaria de ter efetuado e que não teve condições de os concretizar?

Eu quando vim para presidir à junta de freguesia, nunca fiz grandes promessas. Disse sempre que iria trabalhar em função de objetivos bem programados. Isto, ao contrário, de outros opositores que falavam em terminais de transportes, entre outros.

Com essa política, que equipamentos conseguiu concretizar nos seus mandatos?

Por exemplo, a biblioteca, o Museu dos Moinhos, a estrada do Cimo do Olival e a estrada Casal de S. Bento-ETAR. Tudo obras que já eram faladas quando eu estava na Assembleia de Freguesia e que agora estão concretizadas.

Mas que projetos tem, neste momento, preparados?

Com o apoio da câmara, temos levado a cabo algumas intervenções na freguesia. Por exemplo, até ao final do ano contamos já ter construído o bar de apoio no terreno em frente à sede da junta. Um bar que, para além de uma esplanada, ajudará a requalificar o espaço das margens do ribeiro.Um enquadramento onde cabe, também, a requalificação do espaço para a realização da feira semanal. Duas obras que são já uma realidade a curto prazo.

São dois projetos que irão, com toda a certeza, mudar o paradigma de ruralidade da freguesia?

Quando eu entrei para a presidência da junta, Cernache tinha poucas infraestruturas. E já cá moravam cerca de 3.000 habitantes. Por exemplo, não dispunhamos de um parque infantil. Com o nosso trabalho, conseguimos implementar um parque. E já preparamos o espaço, junto ao Museu Moinho das Lapas, para ali ser construído outro.

Isso quer dizer que a vossa preocupação, enquanto junta, foi dar essas condições?

Nós jogamos em três tabuleiros: apostamos muito na cultura (o Museu Moinho das Lapas deu uma ajuda importante), na educação, através da criação de um Centro Novas Oportunidades na junta e da remodelação do parque escolar do 1.º ciclo e na ação social.

De que forma na ação social?

Nós temos uma viatura que transporta idosos todos os dias ao posto médico. E, se for necessário, leva os seniores a Coimbra para uma consulta ou um tratamento médico.

A que se junta o apoio através do empréstimo de equipamento médico?

Sim. Temos equipamento que nos é doado e que, estando em condições, é emprestado a quem precisa. Na ação social, já realizamos uma ação de recolha de alimentos em colaboração com algumas instituições da freguesia. Estamos já a pensar em realizar nova ação.

Disse que a freguesia tem muitos habitantes da classe média alta. Isso quer dizer que os problemas sociais não existem?

Posso dizer que há pequenos focos de crise. Não posso dizer que é uma freguesia problemática nessa matéria. Mas com o aumentar da crise, temo que os problemas aumentem através da pobreza escondida.

O arranjo do campo de futebol foi uma obra positiva?

Veio dar um grande impulso à prática desportiva das camadas jovens. Permite que mais de 200 crianças pratiquem futebol num campo relvado sintético. Só é pena que, mesmo aqui ao lado, o futsal sénior tivesse acabado. Chegamos a ter uma equipa nos campeonatos nacionais da modalidade.

Teme que todo este trabalho seja descontinuado com a anunciada reforma da administração local?

Claro que sim. Se houver agregação de freguesias, como previsto, isto vai ser complicado. Grande parte deste trabalho é voluntário. Depois disto, temo que o trabalho voluntário nunca mais seja realizado. A estupidez desta reforma é não ter em conta as milhares de pessoas que voluntariamente trabalham nestas instituições.

Portanto, não acredita em razões financeiras?

Nada disso. Existem situações que são os próprios autarcas a pagar do seu bolso o gasóleo usado para variadas situações. E os senhores de Lisboa deviam olhar para estas situações. Deviam ver no terreno o que se passa.

A assembleia municipal não se devia ter pronunciado sobre a agregação?

Acho que fez muito bem em não se pronunciar. Até porque todos os presidentes de juntas iriam votar contra qualquer tipo de proposta que fosse apresentada. Uma situação que agora já não acontece, porque infelizmente observo a existência de autarcas camaleões que, apesar de estarem em comissões, vêm dizer para o exterior o que nunca lá disseram.

Desta forma, Coimbra arrisca-se a ter um mapa feito a régua e esquadro?

É verdade. Mas cá estaremos para contestar este ataque frontal ao poder local.

A realização das próximas eleições autárquicas estão em risco?

A sua organização, talvez. Julgo que não vai haver condições para a sua realização. Pois no caso da junção de freguesias, como é que vamos fazer com os eleitores com o mesmo número de cada uma das freguesias? Não vai ser fácil fazer cadernos eleitorais em apenas seis meses. Já sobre o boicote, não apoio, porque os cidadãos têm o direito de se pronunciar nas urnas.

Que comentário faz sobre a posição de Manuel Lopes Porto?

Devia ter-se demitido de um dos cargos: presidente da Assembleia Municipal ou presidente da Unidade Técnica de Reorganização Administrativa. Ele não pode votar a favor das freguesias e, depois em Lisboa, ser o responsável pela sua extinção. Isto não faz sentido nenhum.

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