Opinião – Por que razão foi esquecido Guilherme Centazzi?

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João Boavida

´No que diz respeito ao livroO Estudante de Coimbra” de Guilherme Centazzi, há uma questão que merece análise: a sua modernidade, por um lado, e, por outro, o estranho esquecimento a que esteve votado. Como entender estes factos em simultâneo? Pedro A. Viera considera O estudante de Coimbra o primeiro romance moderno português, visto ser anterior ( 1840 ) aos marcos habituais: O Eurico, o presbítero, de Alexandre Herculano, de 1844, e O Arco de Santana ( 1845 ) e Viagens na minha terra, de Almeida Garrett ( 1846 ).

Por outro lado, o realismo das descrições, os diálogos, caracterizados, como diz Fátima Marinho, «pelo estilo popular e coloquial, sobretudo (…) com interlocutores do povo», a vivacidade das descrições, as múltiplas peripécias, a distância que cria em relação às narrativas setecentistas, faz dele um livro moderno, já dentro dos nossos padrões estéticos. Antecipando até a modernidade, como se, embora integrando-se no romantismo e já com características do realismo posterior, passasse por cima de ambos vindo aterrar na literatura atual, por uma forte tendência para a irreverência, o cómico das situações e as deambulações opinativas, numa torrente verbal mal dominada mas sintaticamente correta, como se o autor corresse atrás da própria pena sem a conseguir parar. Isto é, fazendo um arco entre o pícaro e o aventuroso de novelas como O Lazarillo de Tormes, de autor anónimo, o D. Quixote, de Cervantes, O Gil Blas, de Santillana, A vida e as opiniões de Tristram Shandy, de Laurence Sterne, e até o Manuscrito encontrado em Saragoça, de Jan Potocki (com as devidas distâncias literárias e temáticas) o romântico das relações amorosas, a visão do feminino, os ambientes tenebrosos e o maniqueísmo das personagens, e a liberdade formal e a desenvoltura descritiva bastante posterior.

Não se percebe, pois, por que razão não é referenciado pelas elites do tempo, tendo estado morto durante cento e setenta anos. P. A. Vieira formula hipóteses: O não lhe terem reconhecido a nacionalidade portuguesa, quando é sabido ter nascido em Faro, ele o diz; ter-se, talvez, catalogado o livro como de memórias de estudante de Coimbra, envolvendo-o na imensa bibliografia coimbrã onde há de tudo; ter sido reduzida a tiragem do livro, e de nula distribuição, como ainda ocorre, e, sobretudo, ser muito crítico com figuras importantes e o clero em geral.

Para lá desta última razão, a mais plausível, haverá outras. Se o compararmos com Herculano e Garrett, é óbvia a aparente falta de “acabamento” literário, o que talvez o desqualificasse aos olhos dos contemporâneos, tal como uma certa desformalização que a irreverência crítica e a vivacidade do autor impõem à narrativa. O que parece colocá-lo, por outro lado, mais na linha de Camilo do que na que vai de Garrett a Eça de Queiroz. Mas Camilo é uma árvore frondosa, impossível de ignorar, o que não acontecia com o arbusto Centazzi, irreverente, brincalhão, não dando importância à obra literária, e ainda altamente crítico do clero em geral e dos frades em particular.

A vivacidade da escrita, o pícaro de muitos episódios, a incapacidade de resistir às situações cómicas e de as descrever com impetuosidade e graça, terá favorecido a marginalidade da sua obra literária em relação às suas outras atividades, e talvez explique o “esquecimento” a que foi votado. Somos demasiado “sérios” para apreciar escritores deste tipo, (apesar do dramático daquelas situações) mas esta sua vertente pode ter ajudado ao seu “esquecimento”. Trata-se de uma hipótese, mas sabendo como funcionam muitas elites, e como, pensando e dizendo que não, seguem o pensamento e o sentimento dominantes, a hipótese não será insensata.

 

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