Opinião – Via Verde para ir ao pote

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José Junqueiro

Em meados de Fevereiro de 2011, numa entrevista à RTP, o então líder do PSD, Passos Coelho, dizia de sua justiça sobre a oportunidade de eleições antecipadas e a viabilização do OE 2011 apresentado pelo governo de José Sócrates: “O PSD… não está cheio de vontade de ir ao pote”… “Não faria sentido fazer cair um governo dois meses depois de ter sido aprovado um Orçamento do Estado que impõe “sacrifícios terríveis” aos portugueses”.

Pois bem, entre esta entrevista e o derrube do governo passaram cinco semanas. O Presidente da República, a 9 de Março, transforma o seu discurso de tomada de posse no mais violento ataque a um governo desde o 25 de Abril. O Bloco de Esquerda, no dia seguinte, a 10, discute a sua malograda moção de censura para derrubar o PS e estender uma passadeira vermelha à direita.

O PSD, em sintonia com Cavaco Silva, apresenta a 23 de Março um projeto de resolução que chumba as linhas gerais do PEC IV acabado de aprovar em Bruxelas pelos chefes de estado e de governo, pela Comissão Europeia e o Banco Central Europeu. É a estupefação geral daquelas entidades.

A oposição, à esquerda e à direita, claramente liderada pelo PSD, vota contra o seu próprio país, contra as linhas gerais de um programa de consolidação das contas públicas, recuperação económica, estabilidade e crescimento. Dispensava qualquer intervenção externa e muito menos a da troika.

A entrevista de Passos Coelho revestiu-se de um enorme cinismo. Foi uma representação. O governo teria de cair, a qualquer preço, o tal “custe o que custar”. E tem custado imenso.

Se na sua opinião o PEC IV impunha “terríveis sacrifícios”, o que dizer da tragédia que estamos a viver? E se o PSD não estava “cheio de vontade de ir ao pote” como explica Passos Coelho, o processo EDP e Eduardo Catroga, a sua intervenção direta na “oferta” do BPN ao BIC de Mira Amaral, ou o silêncio sobre a elite cavaquista fundadora daquela instituição e da SLN?

Passos Coelho já não consegue explicar nada e muito menos o mais recente escândalo. Não, não é o da RTP. Refiro-me à transformação do Instituto de Gestão do Crédito Público em mais uma empresa pública, para poder pagar aos seus dirigentes mais do que ao próprio primeiro-ministro. Até meio milhão de euros por ano! Refiro-me à nomeação de João Moreira Rato, vindo do falido “Lehman Brothers, tendo passado pelo Goldman Sachs, o banco que ajudou a mascarar as contas gregas em 2002 e 2003, e por onde passou também António Borges, e chegou vindo do Morgan Stanley, onde era editor executivo”.

Em síntese, com total enfado de todos nós, Passos Coelho, o primeiro-ministro, passa o seu tempo a fazer um plano tecnológico muito especial: uma via verde para ir ao pote.

One Comment

  1. Admiro as pessoas que trazem a publico todas as porcarias que vão neste País,mas falta uma ,o aproveitamento do atual Presidente da Camara de Coimbra que ocupa um cargo para o qual não foi eleito.

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