Opinião – Respeitabilidade zero

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Carlos Diogo Cortes

Na passada semana, num jornal diário nacional, foi publicada a posição do presidente do Sindicato dos Enfermeiros (SE), Enf. José Azevedo, sobre a capacidade dos médicos liderarem os Agrupamentos de Centros de Saúde (ACES).

O eterno presidente do SE e eterno candidato a Bastonário da Ordem dos Enfermeiros afirmou que “para nós, currículo é um molho de papel com ou sem nexo”, “… que escondem a incompetência”, acrescentou que “o médico faz sempre a mesma coisa, está atrás de uma secretária a passar receitas de estetoscópio ao peito”, e seguiam-se outras declarações, no mesmo registo, aludindo ao “currículo zero” dos médicos que “não percebem nada de medicina”.

Todas as suas difamações assentaram numa dicotomia simplista e, obviamente, absurda: a incompetência dos médicos versus a excelência dos enfermeiros (tal como seria despropósito o inverso). É difícil descrever de forma mais insultuosa e inábil uma situação séria e grave. Tais críticas, além de injustas e infundas fazem prova de uma enorme irresponsabilidade, pouco digna do cargo desempenhado. Lamento que estas posições só pretendam mergulhar no insulto fácil e na arrogância leviana.

Na minha vida profissional, como médico, sempre me habituei a trabalhar em equipas multidisciplinares onde a responsabilidade de cada profissional está perfeitamente delimitada e as suas competências respeitadas.

Percebi que muita da eficiência da prestação de cuidados de saúde residia nas sinergias de um trabalho de equipa organizado e estruturado. Aprendi cedo a valorizar o trabalho dos enfermeiros, dos técnicos, dos assistentes operacionais, dos administrativos e de todos os profissionais que contribuem para o funcionamento das instituições de saúde. Penso ser justo reconhecer que, sem o valioso contributo desses profissionais, a qualidade do trabalho médico seria seriamente prejudicada.

A multidisciplinaridade é um aspecto essencial no funcionamento das unidades de saúde. O seu êxito depende, em grande medida, do respeito profissional que cada um dos membros tem pelo outros e, sobretudo, pela sua capacidade de reconhecer as atribuições do seu papel no seio da equipa.

Afirmar que os médicos são incapazes de liderar os centros de saúde onde trabalham é redutor e pouco sério. A realidade dos ACES é muito diferente do cenário infantil descrito. As recentes nomeações dos seus directores foram feitas tendo em conta critérios pouco claros e desvalorizando as necessárias competências na área da saúde. Várias vozes tem denunciado a falta de currículo e experiência nesse domínio e foram apontados critérios baseados exclusivamente em amizade ou servilismo político. A gravidade desta situação obrigou os sindicatos médicos a apresentarem uma denuncia à troika, em prol da defesa clara de nomeações baseadas no mérito profissional. O que está em questão são as capacidades e as aptidões demonstradas para os cargos independentemente da profissão dos nomeados.

As críticas são bem-vindas quando produtivas e fundamentadas. As afirmações do Enf. José Azevedo atingiram o grau zero da honestidade intelectual e demonstram bem que a inaptidão está disseminada por vários sectores, mesmo nas lideranças sindicais que se obrigariam a ser sérias e construtivas…

Infelizmente, o país e os doentes só perdem com tais contributos. Este discurso merecia outra elevação.

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