Fogo destruiu culturas e mobilizou tratores particulares no vizinho concelho de Arganil

Foto Paulo Leitão

O fogo que deflagrou hoje na zona de Tábua consumiu extensas áreas de pinhal e eucaliptal, tendo ameaçado sobretudo a povoação de Sanguinheda, no concelho vizinho de Arganil, onde rondou as casas e destruiu algumas culturas.

Ao final da tarde, vários tratores particulares de Sanguinheda, com depósitos de água para reabastecimento dos carros de combate às chamas, ainda “patrulhavam” os caminhos da montanha, prontos a darem o seu apoio aos bombeiros e sapadores florestais nas operações de rescaldo ou em caso de reacendimento.

Ao início da noite, o fogo, que foi dominado à tarde mas teve um reacendimento, já não constava da lista de incêndios mais significativos na página da Proteção Civil na Internet.

O operário cerâmico Manuel Santos, de 51 anos, está de férias, mas percorreu hoje dezenas de quilómetros com o seu trator agrícola, transportando 3.000 litros de água de cada vez que o ia encher ao lavadouro público da aldeia.

Em Sanguinheda, onde vive, “o fogo chegou ainda ao restolho das casas”, queimando árvores de fruto e videiras, entre outras plantações, disse este voluntário à agência Lusa, contando que carregou nove tanques, num total de 27 mil litros de água.

Manuel Santos acompanha na retaguarda as viaturas da Junta de Freguesia de São Martinho da Cortiça e alguns carros de bombeiros. Logo que a água destes se acaba, o morador, tal como outros vizinhos – “ao todo, talvez uns dez” -, faz a trasfega para o tanque de serviço.

Esta ajuda foi da sua iniciativa e a título gratuito. “Então quem é que me paga? Mas eu não fico mais pobre por isso”, vinca.

Também José Carlos Silva, de 55 anos, camionista de transportes internacionais, deixou a sua vida pessoal para auxiliar os bombeiros e outros meios de combate.

Eram 06H00 quando se apercebeu do incêndio, atrás de uma colina ainda longe da sua casa, em Sanguinheda. “Estava para ir para o Porto, mas já não fui”, diz à Lusa. “Em dez minutos, o fogo já estava cá”, relata.

Segundo José Carlos Silva, o fogo não chegou a destruir casas, nem a ferir pessoas, apesar de ter queimado longas extensões de floresta. “Há vinhas e árvores chamuscas”, diz o motorista, que tinha acabado de levar vários garrafões de água potável aos bombeiros.

Durante o dia, com os ganchos do seu trator, participou na preparação de aceiros, a fim de travar o avanço das labaredas.

Entre as 10H00 e as 12H00, “foi quando ‘ele’ chegou ali, àquela covada”, recapitula, em conversa que envolve já outros companheiros de jornada.

“Nessa altura, ‘ele’ já urrava assim à maneira”, enfatiza Manuel Santos.

Junto a uma vinha, o jovem Bruno apaga a sede com um belo cacho de uvas brancas. Diz que não quer falar, embora revele ter sido mobilizado por seu pai para o trabalho de reabastecimento de água aos bombeiros.

Está de prevenção, agora que o fogo anda lá longe, para as bandas de Oliveira do Hospital e Seia. No trator da família, parado do outro lado do caminho que desce para Sanguinheda, Bruno tem vários depósitos de reserva.

As chamas regressaram aos arredores de Sanguinheda, e lavraram ainda algum tempo junto da Catraia dos Poços, enquanto às 19H00 devoravam povoamentos florestais nos concelhos limítrofes.

Em Rio de Mel, Oliveira do Hospital, a situação estava “muito complicada” ao cair da noite, disse à Lusa o capitão Armando Videira, comandante do Destacamento Territorial da Lousã da GNR.

Na Catraia dos Poços, concelho de Arganil, Ana Barata queixa-se da falta de limpeza das propriedades, junto às habitações. “Houve hoje um pequeno foco de incêndio mesmo atrás da minha casa”, diz, apontando para um eucaliptal que se ergue a poucos metros da sua residência.

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