Opinião – Que se lixe a hipocrisia

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Gonçalo Capitão

 

Ando pasmado com a hipócrita indignação da esquerda em torno da expressão do primeiroministro “que se lixem as eleições” (como sabeis, dita por contraposição à possibilidade de, com medidas impopulares, resgatar o país da situação actual)…

Antes de nos condoermos com o facto de os partidos da oposição perderem tempo com coisas secundaríssimas num tempo tão sombrio, vejamos, ab initio, que se trata de uma questão de estilo coloquial que o Pedro Passos Coelho sempre adoptou com visível sucesso comunicativo. Ninguém poderá esquecer que, na mesma altura e brincando com comentários preocupados, o nosso Premier disse que estava magro apenas porque fazia dieta. Sei bem o que são estas “falsas virgens púdicas” da nossa esquerda, pois o meu estilo de expressão sempre me deu algumas gostosas dores de cabeça, inclusive na defesa da minha tese de mestrado (“Telecomandos, ratos e votos”).

Ainda mais boquiaberto me quedo quando vejo acusações de populismo ou desrespeito pela democracia por parte do PCP e do Bloco de Esquerda! Estaremos a falar dos partidos que empurram sindicalistas para enxovalhar governantes em qualquer lugar onde estes se desloquem, pretendo que os cidadãos comuns pensem tratar-se de genuínas erupções populares de indignação?! Tenham juízo e decoro!…

Deixem-me, aliás, dizer-vos que se a forma de expressão pagasse imposto de cada vez que a língua portuguesa é vilipendiada ou que a vontade de dormir ataca qualquer ouvinte que tenha acabado de beber um café ou um Red Bull, creio que a colecta fiscal de 80% dos nossos parlamentares (incluindo a esquerda) pagaria grande parte do défice.

Dito o isto, sublinho ainda que os nossos parlamentares vivem na era do Twitter, que subscreveram um lamentável Acordo Ortográfico que aponta no sentido de uma simplificação desbragada e que os costumes evoluem! Será que ainda se levantam quando a Presidente da Assembleia da República entra na sala? De onde vem tanto choque a não ser, aqui sim, de um populismo idiota?

Se a memória me não falha, foi Shimon Peres que disse que era preferível lutar por uma causa do que ganhar eleições. Eu continuo a concordar com essa ideia e fico tranquilo por saber (algo que não me surpreende) que Passos Coelho afina pelo mesmo diapasão.

Post-scriptum I: o que deveria ter indignado esquerda, centro e direita foi o filme pornográfico que vi na RTP sobre os lucros da Galp, que parecem ter crescido 56,7% (cifrando-se em 178 milhões de euros), no primeiro semestre de 2012. Isto só mostra que, se fosse solidária com o esforço dos portugueses, a empresa poderia encurtar as suas margens, assumindo parte dos dantescos aumentos dos combustíveis. É uma vergonha que parece não seduzir tanto a esquerda como o folclore político…

Post-scriptum II: dou as boas-vindas ao BEIRAS a esse nome grande da social-democracia coimbrã que é Ricardo “Mamede” Cândido, homem sem fato, mas com muito facto. Aguarda-se prosa de qualidade!

One Comment

  1. Só é pena que o Sr Doutor fale em solidariedade, sem se preocupar em pelo menos analisar a composição desse resultado. Se o fizesse, iria perceber que a contribuição da refinação e distribuição, segmento no qual se inserem os combustíveis e outros refinados, anda na ordem dos 8%.
    Aceitar-se-ia se fosse dito por um qualquer cidadão, não se aceita de uma pessoa que desempenhou cargos de responsabilidade política como o Sr Doutor.
    Já agora, sugiro que peça "solidariedade" e porque não, responsabilidade, aos gestores públicos que gerem as empresas públicas de transporte que "entregam" 1000M€ de prejuízo/ano e que têm dívidas acumuladas que ascendem a 17000M€. Faço-lhe a conta… só em encargos financeiros, são cerca de 600M€ ano…Isso sim, seria solidarieade.

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