Opinião – No 8.º centenário das irmãs Clarissas

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Manuel Augusto Rodrigues

 

Como nos outros meses também em Agosto o calendário litúrgico inclui a evocação de alguns factos da vida de Cristo e de Maria e de muitos santos que se evidenciaram ao longo da história do cristianismo pela sua espiritualidade e virtude e pelas obras que realizaram, muitas das quais prosseguiram de geração em geração até aos nossos dias. Não falta quem lamente que actualmente na liturgia não se preste ao Santoral da Igreja uma atenção maior, pois ele constitui um tesouro de lições e uma fonte inesgotável de apelos à fé para a compreensão e prática da vida cristã e à razão para a resposta aos problemas que torturam o homem. Todos esses heróis, cristãos de eleição e venerados ao longo da tradição, beberam da mesma mensagem de Cristo, mas cada um a aplicou a objectivos diferentes de acordo com a sua vocação e as circunstâncias do tempo em que viveram.

Até ao dia 15, festa da Assunção, figuram durante o mês de Agosto Afonso Maria de Liguori, grande bispo e doutor da Igreja ( 1 ), o célebre Cura de Ars ( 4 ), a Transfiguração do Senhor ( 6 ), Domigos de Gusmão, o fundador da ordem dominicana ( 8 ), a filósofa alemã de origem judaica Teresa Benedita da Cruz (Edith Stein) que se fez carmelita e morreu no campo de concentração nazi de Auschwitz, vindo a ser canonizada por João Paulo II que a proclamou co-padroeira da Europa, juntamente com Brígida da Suécia e Catarina de Siena ( 9 ); o mártir Lourenço ( 10 ) e a franciscana Clara ( 11 ). Na segunda metade do mês encontramos o rei da Hungria Estêvão ( 16 ), Bernardo de Claraval, o célebre abade cisterciense e doutor da Igreja ( 20 ), o papa Pio X que ficou ligado à questão francesa da separação da Igreja do Estado em 1905, à condenação do modernismo, à reforma litúrgica, etc. ( 21 ); o apóstolo Bartolomeu ( 24 ), o rei de França Luís ( 25 ), Mónica, mãe de Agostinho ( 27 ), o grande doutor da Igreja Latina e padroeiro da diocese de Coimbra que se celebra no dia imediato ( 28 ) e o martírio de João Baptista ( 29 ). Um elenco precioso merecedor de estudo e reflexão.

Ocorrendo em 2012 8.º centenário da criação da Ordem das Irmãs Clarissas – em 2003 se evocaram os 750 anos da sua morte -, escolhemos para este apontamento Clara de Assis que tão cara é a Coimbra e tão próxima de Isabel de Aragão, a Rainha Santa, de entre essa rica galeria de homens e mulheres de elevada estatura espiritual e profundamente impregnados do ideal evangélico.

Clara que nasceu em 1194 em Assis no seio de uma família abastada veio a tornar-se admiradora e amiga do Poverello e foi perante ele que fez a profissão no dia de Ramos de 1212 na igreja de S. Damião, dando assim origem à Ordem das Clarissas, a Segunda Ordem Franciscana. Na clausura e na contemplação viveu o ideal de pobreza evangélica. Em 1215, Francisco redigiu uma regra bastante austera para ela e suas companheiras, da qual fazia parte o voto de pobreza, facto raro no monaquismo feminino. Quando morreu em 1253 havia já 110 mosteiros de Irmãs Clarissas que depressa se estenderam pela Europa; hoje é a Ordem de Clausura mais numerosa em toda a Igreja, pois conta cerca de 1500 casas em todos os continentes. Declarada santa pelo papa Alexandre IV em 1255, em 17 de Fevereiro de 1958 Pio XII proclamou-a padroeira da televisão e das telecomunicações.

As Irmãs Clarissas chegaram a Portugal pouco depois da morte da sua fundadora. A primeira comunidade instalou-se em Lamego, passando em 1259 para Santarém. Aquando da supressão das ordens religiosas em 1834, eram 100 os mosteiros de Irmãs Clarissas em Portugal. Reportando-nos a Coimbra, lembramos que as Religiosas Carissas passaram mais tarde do primitivo mosteiro que data do séc. XIII para o de Santa Clara-a-Nova no monte da Esperança onde agora se guardam os restos mortais de Santa Isabel. O templo com o seu majestoso claustro é uma das preciosidades arquitectónicas e artísticas da Cidade do Mondego. O plano ficou a dever-se ao monge beneditino João Turriano, lente de Matemática e engenheiro-mor do Reino do tempo de D. João IV. Constatando-se agora a necessidade de proceder ao restauro e beneficiação de algumas partes, urge unir esforços para que a Confraria da Rainha Santa e o seu dedicado e dinâmico presidente sintam o máximo apoio e assim possam concretizar as obras previstas.

Entretanto não podemos deixar de referir que o velho Mosteiro de Santa Clara, que esteve abandonado durante largo tempo, conheceu em 1991 o início de um ambicioso projecto de recuperação e valorização. O Centro Interpretativo, concluído em 2008, foi aberto ao público a 18 de Abril de 2009.

Na carta escrita por Bento XVI a propósito do centenário da Ordem das Clarissas o Pontífice lembra a actualidade de Clara pelo confronto existente entre o seu ideal e as ilusões e desilusões que desnorteiam tantas vezes os jovens de hoje e conduzem a paraísos artificiais, como os da droga e da sensualidade desenfreada. Essa mentalidade muito depende da manipulação operada pelos adultos e da atitude complacente dos estados e dos pais que renunciam à sua missão educativa.

Referiu-se o Papa também a outros pontos como à situação actual em que dificuldades de toda a ordem afectam tantas pessoas e famílias. Lembrar Clara de Assis é regressar às fontes do cristianismo, ao genuíno espírito de verdade, justiça e amor, à autenticidade e ao enraizamento em Deus do qual se sente uma profunda nostalgia. A Clara do silêncio e da memória ensinou que as renovações e reformas que tanto se reclamam redundarão sempre em fracasso se antes de mais se não fizerem no mais íntimo do ser humano, no coração de cada um.

 

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