Opinião – Quem roubou o Don Juan?

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Francisco Queirós

A história vem contada nos jornais. Parece ficção, guião de filme ou romance. A 19 de junho, uma importante galeria de arte de Nova Iorque foi assaltada por um homem, eventual comprador, de 35 a 40 anos, que calmamente retirou um quadro de Salvador Dali da parede e o meteu num saco para depois desaparecer. A aguarela “Cartel de Don Juan Tenório”, pintada pelo pintor espanhol em 1949, está avaliada em cerca de 120 mil euros e desapareceu sem deixar rastos.

Mas por poucos dias. A 28 de junho, a obra foi devolvida pelo correio. O remetente do ladrão –arrependido ou brincalhão? Sabe-se lá – era Atenas, Grécia! Agora, o coleccionador, temporariamente espoliado, e a polícia interrogam-se sobre o sentido de tudo isto.

A história tem o seu quê de irónica, talvez adequada ao espírito do pintor surrealista. Don Juan andou desaparecido e foi remetido à procedência. Com que sentido? Com que intenção? Porquê?

Pensava eu nesta história com o jornal quase a cair das mãos, cansado que estava num final de dia bem estenuante. E então devo ter adormecido. Foi quando vi uma senhora alemã vestida de irmão metralha a entrar pelo museu dentro. Das paredes, retirou vários quadros que colocou, com a maior calma do mundo e a ajuda de vigilantes poderosos, em enormes sacos. Depois dirigiu-se aos expositores e vitrines das diversas salas do museu e retirou jóias, pedras preciosas e muitos outros objectos e símbolos valiosos.

Aparentemente auxiliada por meia dúzia de homenzinhos de fraque, a quem chamava mercados e em quem parecia mandar mas, concluída observação rigororosa, obedecia, lá foi guardando riquezas. Algumas tinham etiquetas: agricultura, indústria pesada, pescas, saúde, segurança social, direitos, etc.

Empilhados os sacos em monta-cargas conduzidos por figuras conhecidas com braçadeiras onde se podia ler nuns “troika” e noutros “subscritores da troika”, lá foram os tesouros conduzidos para parte incerta. Dias depois uma enorme encomenda chegava a uma das poucas estações de correio que ainda não tinham encerrado. O remetente indicava: “Das troikas, da senhora alemã e dos mercados com arrependimento e carinho”.

Foi então que acordei! Meio estremunhado, descri de tudo. Uma senhora metralha que primeiro rouba e depois devolve os despojos de um povo!? Não pode ser! Sonho estúpido! Uma galeria assaltada e um brincalhão que devolve o Don Juan a partir de Atenas? Mentiras dos jornais. Só pode ser! Um país e um povo nas garras de uma quadrilha internacional com conivências e participantes internos? Um pesadelo! Um enorme pesadelo! Surrealismo? Oh, desilusão! A história da galeria é real. Mas a outra… A verdade que de tão dura e inverossímil não cabe nas histórias dos filmes!

One Comment

  1. Abílio Ferreira says:

    Muito bom, Francisco Queirós. Gostei imenso do seu artigo. Parabéns. Continue arranjou mais um admirador.

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