Opinião – Euro-obrigações

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Maria Manuel Leitão Marques

É um dos temas de primeira página nas últimas semanas na Europa. Na que vive em austeridade e na que está à espera que ela chegue em breve, como a França. Com as euro-obrigações, vulgo “eurobonds”, visa quebrar-se um dos um círculos viciosos em que nos enredamos: quanto maiores são as dificuldades e o défice de um país, maiores são os juros cobrados por quem lhe empresta; mas ao pagar juros elevados esse país não resolve as suas dificuldades, nem melhora a sua capacidade de reembolso, o que faz de novo subir os juros.

A mutualização da dívida, a nível da zona euro, permitiria reduzir o risco de quem empresta e naturalmente teria um impacto positivo nos juros cobrados a quem recorresse aos eurobonds. Segundo os cálculos de alguns analistas, permitiria reduzir o valor do juros em mais de 50% para os países hoje mais penalizados, não naturalmente para os que por ora não têm esse problema.

Naturalmente, ao mutualizar-se a dívida, serão todos os países da zona euro a responder por ela. Por isso os países em melhor situação, como a Alemanha, não o aceitarão sem pedir em troca algumas garantias a quem vai beneficiar desse sistema: a de que o usa com comedimento e se esforça para não entrar em incumprimento. Mesmo que fosse mais generosa a vontade dos respetivos dirigentes, as sondagens hoje publicadas mostram o apoio minoritário que tal atitude tem na respectiva a opinião pública nacional. E essa opinião faz cair os dirigentes atuais e crescer as franjas nacionalistas, como se tem visto.

Vem depois a outra face da moeda. Para que os países em dificuldade possam honrar os compromissos assumidos é preciso que seu rendimento cresça, o que entre nós não tem acontecido. Ou seja, que se quebre o outro círculo vicioso: o de menos défice, mais austeridade, menos despesa, menos receita, maior défice e portanto mais austeridade e por aí adiante. E daí os fundos especiais para o crescimento que irão ser discutidos no Conselho Europeu.

Mesmo que houvesse um consenso sobre tudo isto, os efeitos não são imediatos, nem tão pouco garantidos, é bom que saibamos disso. Nem retomar o crescimento depende apenas da Europa. Há contudo necessidade de tentar qualquer coisa de diferente das medidas de curto prazo assumidas até agora, daquelas que apagam o incêndio mas não as brasas que o voltam a atear. É preciso assumir riscos para reganhar a confiança sem a qual tudo será sempre mais complicado. Por muita que seja a nossa compreensão para um tempo de sacrifícios, precisamos de ver alguma luz a brilhar nas estrelinhas que ainda enfeitam a bandeira a Europa.

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