“Mercado externo tem sido fundamental para a Fucoli”

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Que balanço faz dos 66 anos de atividade da Fucoli-Somepal, que se completam domingo, dia 29 julho?

É um balanço de evolução, de franca positividade, porque ao longo destes anos soubemos sempre ajustar a empresa às modernidades, às necessidades do cliente. Houve uma evolução sempre positiva, modernizamos o processo produtivo, modernizamos a organização e a vertente dos recursos humanos, apostando muito na formação. Fomos fazendo aquilo que era necessário para nos adaptarmos às mudanças.

Quais foram os momentos mais importantes na vida da empresa, que marcaram o rumo de sucesso?

Um momento marcante foi em 1994, quando introduzimos um processo produtivo muito automatizado, que nos deu condições para competir em todos os mercados. Depois, em 2005, substituímos os fornos a carvão, que produziam monóxido de carbono, pelos fornos elétricos, o que nos obrigou também a alterar a forma de produzir, que se tornou mais automatizada. Com estes investimentos melhorámos bastante o processo produtivo, mas foi preciso, em simultâneo, efetuar um ajustamento dos recursos humanos, porque quanto mais sofisticado é o processo mais conhecimentos são necessários.

Atualmente Portugal é o principal mercado da Fucoli-Somepal?

Setenta por cento da nossa produção destina-se ao mercado interno e 30 por cento ao mercado externo. Mas estes 30 por cento que exportamos – neste momento talvez sejam mais, porque a tendência tem sido de aumento – são fundamentais para a sustentabilidade da empresa. A almofada da exportação foi vital e está a ser vital para a sustentabilidade da empresa, porque neste momento, devido à crise, o mercado interno está completamente parado. Nós fabricamos produtos que se destinam essencialmente ao desenvolvimento de obras financiados pelo Estado ou por câmaras municipais, com o apoio do Estado. Neste momento o Estado vive uma fase de contenção, portanto não lança obras e não compra, e em consequência o volume de trabalho para o mercado interno diminuiu muito. Para subsistir a esta situação, temos também feito um grande esforço de gestão das matérias-primas.

Face a este cenário, as exportações podem ser uma aposta para fazer face aos atuais tempos de crise?

Há um problema. Como o mercado externo também está em recessão, enfrentamos uma maior concorrência. A Fucoli-Somepal impôs-se no mercado, nacional e internacional, por força da sua qualidade. Mas agora enfrentamos a concorrência de países como a China e a Índia, que chegam ao mercado com preços baixíssimos. E há países que não se preocupam com a qualidade, querem é comprar barato.

Quais são os principais mercados externos da empresa?

Exportamos para muitos países, de vários continentes. Na Europa exportamos sobretudo para Espanha, Itália e Luxemburgo, mas os nossos produtos também chegam a outros países. Exportamos também para países do Leste Europeu, da Ásia, da América do Sul – onde temos um bom cliente na Argentina –, e do norte de África, como Marrocos, Argélia, Egipto e Tunísia, e começámos também a exportar para Angola.

Qual é o volume de faturação da empresa?

O volume de faturação é de 19 milhões de euros, este ano talvez seja 15 ou 20% mais baixo.

Quantos colaboradores tem atualmente a empresa?

Neste momento temos 240 colaboradores, mas já tivemos 360.

Com a atual crise nota-se uma grande recessão do mercado?

Uma recessão brutal. Não me lembro de ter assistido, em toda a minha vida, a uma situação como esta. De tal maneira que tenho feito uma reflexão e posso dizer que se não fosse a grande capacidade de resistência, provavelmente a empresa já tinha encerrado. A este cenário acrescem as maiores dificuldades em liquidar as cobranças e em obter, em caso de necessidade, financiamento por parte da banca. Logo, se as empresas não tiverem recursos financeiros colapsam. Esta situação tem levado as empresas a fazer ajustamentos no número de recursos humanos, o que também não é bom, porque acaba por ter consequências sociais.

E a falência de empresas e o aumento do desemprego acaba por acentuar a crise e provocar alguma conflitualidade social?

Sim, piora a situação. Por um lado, geram-se menos receitas de IRC e de outros impostos de transações comerciais, e não é por caso que nas últimas análises se verificou que diminuíram as receitas do Estado e aumentou a despesa. Por outro lado, gera-se mais despesa no pagamento de subsídios de desemprego. Os trabalhadores estão a perder o emprego, estão a perder rendimentos, com o corte de subsídios, e no plano social já vemos diversos sinais de amargura.

É normal que com uma política de contenção a despesa do Estado continue a aumentar?

Estranho não é, uma vez que os corruptos não acabaram. A despesa pode aumentar devido aos juros monstruosos que se estão a pagar pela dívida à Comunidade Europeia. Mas era necessário que o Estado fizesse uma grande investigação, para saber onde e porque é que aumentou a despesa.

Na sua opinião, o que é que Portugal poderia fazer para minimizar o impacto da atual crise nas empresas?

Não sei. Esta crise está a afetar muito os países da União Europeia mas é uma crise mundial. Ao longo dos anos, quando existia uma crise, nós víamos sempre uma luz ao fundo do túnel, mas agora não. Um dos parceiros importantes da economia portuguesa era Espanha, que está agora também numa crise profunda, com grandes medidas de austeridade e cinco milhões de desempregados. Itália, outro mercado importante para a nossa empresa, também está em crise, tal como a França. E nesta crise mundial aparentemente a procissão ainda vai no adro, pois já dizem que 2013 vai ser um ano ainda pior que 2012.

A indústria portuguesa tem condições para ser competitiva no mercado internacional?

Sim, a indústria portuguesa pode ser competitiva em algumas áreas de negócio. Por exemplo, no setor dos vinhos, do calçado de qualidade, entre outros.

Ter uma empresa instalada em Coimbra é uma vantagem ou uma desvantagem?

É uma vantagem. Coimbra é uma cidade do litoral, tem a vantagem da centralidade, é equidistante das duas grandes cidades, Lisboa e Porto, tem boas vias de comunicação e foi, por exemplo, uma das primeiras cidades a estar ligada a uma auto-estrada.

Apesar dessas vantagens, Coimbra não têm conseguido atrair a fixação de muitas empresas.

A nossa governação camarária não tem apoiado as empresas, devia estimular mais a fixação de empresas no concelho e o seu desenvolvimento. Em 40 anos morreram duas centenas de empresas em Coimbra – e algumas eram empresas importantes, como a Triunfo, a Ideal e outras do setor cerâmico – e se tivessem tido ajuda algumas destas empresas poderiam ter sido salvas. A câmara municipal podia e devia ter alguma preocupação com isso, mas não tem tido. Atualmente Coimbra não tem indústria, só tem o ensino e a saúde.

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