Solidariedade entre gerações dá alojamento a estudantes em troca de apoio a idosos

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A vontade de ajudar e de ser ajudado mobilizou estudantes e idosos de Coimbra numa nova solidariedade intergeracional, que a Associação Académica vê como feliz entreajuda em tempos de crise.

Estudantes da Universidade de Coimbra (UC) recebem alojamento gratuito na casa de idosas e convivem com elas, acompanham-nas ao médico, tratam-lhes de burocracias e até controlam a toma dos remédios.

O projeto Lado a Lado foi criado pela Associação Académica de Coimbra (AAC), em parceria com a associação católica Centro de Acolhimento João Paulo II, para ajudar estudantes com dificuldades em prosseguir os estudos e minimizar a solidão de alguns idosos da cidade.

A AAC encaminha os interessados. O centro de acolhimento identifica idosos, analisa as condições residenciais e procede a avaliações psicológicas e sociais aos candidatos.

O processo demora alguns meses. Ambos são preparados para a relação de coabitação e cooperação e só se conhecem no final, quando se inicia o convívio quotidiano. Nesse trajeto alguns acabam por desistir.

O projeto Lado a Lado iniciou-se em 2009 e, “ainda bebé”, já suscita interesse de instituições dos Açores, Leiria, Évora e Lisboa, que o querem conhecer e adotar, revelou à agência Lusa Teresa Sousa, do Centro de Acolhimento João Paulo II.

Júlio, guineense, agora a concluir o mestrado em Direito, foi o primeiro. Ajudou a “avó” dois anos letivos. Convivia, acompanhava-a às consultas, comprava-lhe medicamentos, ia à Segurança Social e renovava-lhe o passe de transportes públicos.

“As motivações foram várias. A vontade de ajudar, mas também uma forma de integração, e de dar um contributo para a sociedade portuguesa”, contou à agência Lusa.

Até agora participaram no Lado a Lado nove estudantes da UC, predominantemente rapazes, originários dos países africanos de língua portuguesa, nomeadamente de Angola, Guiné-Bissau e Cabo Verde. Uma nigeriana a frequentar um mestrado em tradução também o integrou.

No entanto, várias parcerias não se concretizam porque há idosas relutantes em receber rapazes, apesar de funcionar muito bem, “se calhar até melhor do que com as raparigas”. Idosos, até agora, não procuraram ajuda de estudantes, disse Teresa Sousa.

Venisa, cabo-verdiana, da Cidade da Praia, estudante de engenharia do ambiente, integra há dois meses o projeto. Ainda não conhece a idosa com quem irá morar. Interessou-se, pois “é sempre uma ajuda não ter de pagar alojamento”. O que vê de “mais importante é a comunicação entre jovens e idosos”.

Fernanda é professora aposentada com 90 anos e acolhe Margarida, já licenciada em medicina, mas a especializar-se em pedopsiquiatria. Reside e faz a formação no Porto, mas trabalha em Coimbra, e pernoita na casa da Fernanda às terças e quintas-feiras.

A empatia entre ambas foi presenciada pela agência Lusa na casa da Fernanda. Quem não soubesse pensaria que se conhecem há anos, mas apenas convivem desde 16 de abril último. Em conversa amena, uma iniciava a frase e a outra intervinha e concluía a ideia.

“Adoptamo-nos assim, um bocadinho, uma à outra”, conta Margarida, que já deu a conhecer à “avó” Fernanda a consanguínea mãe, irmã e sobrinhos.

Fernanda é confidente dos “dias pesados” que a Margarida tem com as crianças. Aquela conta-lhe histórias do seu tempo, ou partilham ideias sobre o dia a dia, as notícias, ou o quintal onde a jovem médica, de galochas, gosta de cavar e cuidar de couves e alfaces.

Rita Andrade, coordenadora do Pelouro da Acção Social da AAC, considera que o sucesso do Lado a Lado ainda pode ser maior, com novas estratégias de divulgação. Acredita que tem enorme potencial, particularmente numa altura em que os estudantes sentem mais dificuldades económicas.

 

Texto Agência Lusa

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