Opinião: Harmonia precária

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Aires Antunes Diniz

Por força da profusão de opinadores, poucos têm seguido, com a necessária atenção, a elevação a condição de sucesso profissional o ser ou ter sido espião, variando o valor desta qualificação entre pequeno, médio, grande e superespião como condição necessária para se trabalhar numa empresa e não ter de emigrar.

Nada é como no tempo em que se gozava com o sebenteiro, escrivão do lente, fazendo com que alguém afirmasse: “Não faltei à numerosa manifestação, que se compunha duma filarmónica de bombo e assobios com balões venezianos e velas e com um enorme papelacho, supondo uma bandeira que continha esta legenda: – Foge bruto que te fazem membro do Instituto!». Entretanto, cresce o desemprego docente, mostrando como o governo o considera normal e necessário. Prossegue este só a justificação desta sua “incoerência”, procurando fazer esquecer que a espionagem é a marca genética da atual fase do capitalismo, onde a corrupção e a impunidade são regra.

De facto, não contratando espiões, Rupert Murdoch, em Inglaterra, contratava polícias para ter acesso às notícias fantásticas que lhe permitiam fazer vendas acrescidas de jornais. Entretanto, a justiça funcionou … em Inglaterra.

Em Portugal muita mais sorte têm os espiões. Vemos… E esperamos que não atinjam, como na Rússia, a chefia do Estado.

Por outro lado, mostrando como a ciência económica é uma batata com reentrâncias, onde tudo é possível de ser explicado, aposta-se na salvação das grandes organizações porque não podem falir e prossegue-se o desmantelamento de tudo o que é pequeno mesmo que eficiente. Não admira que as nossas ruas se transformem em lugares de casas vazias e de lojas abandonadas e cheias de lixo. Mostrando como tudo se esquece, a Jerónimo Martins nem quer saber das práticas ditadas pela Responsabilidade Social das Empresas. Vai assim transformando as suas lojas em lugares de pugilato em cada promoção canibal dos preços. Estamos por isso entregues a brutos que nunca serão membros de nenhum Instituto Científico?

Tudo se desenvolve numa harmonia precária que a todo o momento se pode desfazer. Toda uma panóplia de saberes sólidos, por derivarem da sensatez e sabedoria dos povos, se foi entretanto desvalorizando neste processo de agravamento da crise, em que os remédios naturalmente falham todos por os verdadeiramente doentes se recusarem a tomá-los, obrigando pelo contrário os sãos a tomarem drogas que não precisam. Não admira que os países continuem sempre doentes, e até pior, preconizando-se agora a saída do Euro como “terapêutica necessária”, não se diagnosticando os vírus e as bactérias que os achacaram.

Na verdade, os males sociais e económicos agravam-se e alastram, sendo agora bem grave a da Finança Espanhola, pondo em estado de alerta toda a Economia Europeia e até a Mundial. Estamos assim obrigados a retornar à sensatez e sabedoria da boa teoria económica para que a harmonia económica e financeira volte a existir.

Tem que ser.

1 – A Harmonia, ano 1, n.º 19, 4 de Junho de 1914, p. 2, coluna 1.

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