Milenário da República Rosa Luxemburgo em Coimbra

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A República Rosa Luxemburgo assinala este sábado o seu milenário. O terceiro, dizem elas. Na verdade, é o quarto – cada ano, nas repúblicas de Coimbra, vale por cem, mas a primeira década, naquela emblemática casa cor de rosa foi por demais fervilhante para que alguém se incomodasse a comemorar o tempo; daí que, apesar de fundada em 1972, o primeiro centenário apenas aconteceu em 1982.

A fundação é sempre um marco, numa casa comunitária. Para a Rosa Luxemburgo, a iniciativa de um grupo de oito raparigas estudantes, na ressaca da vaga de prisões e do encerramento da Associação Académica, foi também um momento único, na academia de Coimbra. Desde logo por se tratar da primeira – e, durante décadas, a única – república feminina de Coimbra. Depois, pelo simbolismo do que significava a luta pela igualdade de género e pelos direitos das mulheres no quadro político e social do país, já em fase de desencanto total com a chamada primavera marcelista.

Desde o início que a república – que primeiro foi solar, refira-se -, ocupa a emblemática casa cor de rosa da esquina das ruas Correia Teles e Pedro Monteiro. Ali funcionara, até 1969, uma outra república, o Rapó-Taxo, pelo que o senhorio terá condescendido.

A escolha do nome da casa – evocando a revolucionária polaca, de origem judaica, que marcou a política da Alemanha no início do século XX – e o intenso ativismo militante das primeiras “rosinhas” haveriam de definir o rumo da casa. Em quatro décadas, e ainda hoje, foi e é um invulgar espaço de experiências, vivências e convivências, das raparigas que lá viveram e também dos amigos, dos penetras, dos namorados e, sobretudo, dos comensais – na grande maioria homens, com destaque para um pioneiro, o saudoso Nuno Rilo, justamente considerado mais da casa do que muitas da casa.

Até ao virar do milénio, os centenários da república calhavam, invariavelmente, na noite de sábado da Queima das Fitas. Transformavam-se, por isso, numa espécie de romaria anual de nostálgicos de um universo coimbrão que, resistindo ao vazio dos anos 80 e à voragem dos 90, ali arribavam à procura do outro lado de uma Coimbra cada vez mais dominada pela normalização a preto e cor de fitas.

A certa altura, o “muro” caiu. Foi em 1994 que a Cristina Pinto acabou com o tabu e, sem avisar, soltou um “efe-erre-á” na casa onde o hino culmina com um “abaixo a praxe e viva o haxe”…

Outros tempos, Para a festa deste terceiro milenário, as “rosinhas” esperam a vinda da maioria das antigas residentes e de muitos e muitos amigos da casa. Por isso, prepararam um programa abrangente, que inclui, às 18H30, no teatro de bolso do TEUC, uma sessão de jazz, pelo Combo do Conservatório de Música de Coimbra. Depois, à noite, a desbunda às voltas pela praça da República tem artistas de rua e som de bombos do Rebimbomalho.

Das fundadoras, quatro vão marcar presença: Luísa Alberto, Teresa Lopes, Margarida Barbedo e, claro está, Fernanda Mateus “bombista” – a estudante de Letras que, em 1971, tinha sido presa na arremetida de polícias e pides Associação Académica adentro. Todas vão ser convidadas a despertar memórias e histórias desses tempos extraordinários para um gravador digital. A recolha, de cariz parajornalístico, é apenas uma pequena parte de um amplo trabalho de construção da história da casa. Conta-se, claro, com o notável acervo bibliográfico, felizmente já organizado, e também com a sistematização de inúmeros documentos a disponibilizar em breve.

Para que conste, a República Rosa Luxemburgo é, hoje, a casa da catalã Paula Rodriguez, da brasileira Marcela Farias, da madeirense Ana Costa e da ribatejana Sandra Vilelas. Ah! E também da Luísa, há duas décadas a tratar de comida e tachos, e do Tufo, o cachorro que já não ladra aos capistas…

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