Exorcismos

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Aires Diniz

Quando cheguei ao Rio de Janeiro estava imperfeitamente apaixonado por uma ubandista que tinha tido um acidente e se arrastava através do Atlântico. E eu, convertido ao catolicismo desde o momento que aterrei no Galeão, tentava saber do seu email pois já tinha convidado a simpática hospedeira a ser madrinha deste casamento pelo menos à Bangu, algo que na linguagem carioca é um compromisso sem regras. Infelizmente, procurando-a no Facebook via encavalitada numa vassoura qual bruxa alada e aí percebi porque tinha desaparecido tão rapidamente da minha vista.

Como fui aprendendo neste Rio cheio de religiões, havia que fazer o exorcismo necessário para quebrar este mal de amores. Recordei que “Numa noite coimbrã, numa casa velha do Palácios Confusos, depois de uma mórbida audição de Chopin, achávamo-nos em volta de uma mesa, eu e dois companheiros, à espera que se manifestasse algum espírito condescendente. A breve trecho a mesa acusou a insólita presença do Catão (o do delenda Carthago1)” . Tornava-se assim Coimbra cidade de esotéricas experiências, rivalizando em escala menor com o Rio de Janeiro e as suas muitas religiões, que são o resultado natural de confluências de migrações e da liberdade natural, que aqui floresce sem peias como a natureza tropical que nos envolve.

Contudo, nestes meados de Abril, o que transparecia como preocupação merecedora de exorcismo era para todos o que se passa nesta nossa Europa em crise, cujas culpas ninguém quer atribuir aos males da governação. Todos parecem culpar disso a dupla Sarkozy e Merkel, aqui bem mal vista, numa culpabilização dos três grandes países da Europa, Alemanha, França e Inglaterra. Contudo, poucos parecem culpar os títeres recentes da pátria lusa: Sócrates e Passos Coelho. Muitos luso-brasileiros propõem-se retomar o espírito fundador do Real Gabinete de Leitura do Rio com que a colónia portuguesa pretendeu contribuir em 1880 para a ultrapassagem da sempre eterna crise portuguesa. Foi esta ideia marcou também o 6º Colóquio do PPRLB – Portugal no Brasil: Pontes para o Presente, que aqui quer dizer Futuro.

Entretanto, deambulando pelo Rio de Janeiro, vi que se mantinha a mesma preocupação com o crime, algo que toda a gente diz existir. Também, notei em alguém uma real preocupação com a minha vida pessoal, convidando-me a vir para o Brasil. Como era um desconhecido, estranhei e agradeci, dizendo logo que não podia deixar Portugal entregue aos bichos. E compreendeu, mas quanto aos jovens achou que têm tudo a ganhar em vir. Mas, pensando bem, todos temos a obrigação de lutar contra “A farsa do neoliberalismo”, o título esclarecedor do livro do economista brasileiro, Nelson Werneck Sodré, que mostra nele como tudo pode ser ultrapassado.

De facto, pela análise rigorosa do real, podemos repudiar fundadamente as farsas e os farsantes, mudando de política para exorcizar o Presente, construindo o Futuro em bases mais sólidas e sadias.

É o que temos de continuar a fazer.

1 José Júlio Rodrigues – Silhuetas e Visões, Faro, Editor Armelim Cácima, 1930, p. 70.

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