Lixo político produz lixo económico

Lucílio Carvalheiro

Teorias altamente ousadas e que se pretendem científicas – o funcionalismo tecnocrático financeiro – propõem-nos explicar comportamentos políticos governamentais e leis para racionalizar atitudes e definir uma estratégia de reformas estruturais.

Acontece que me parece difícil de demonstrar e acreditar que o comportamento da sociedade (pessoas, empresas, instituições democráticas), possam ser traduzidos em termos matemáticos, e entregues a computadores; e não se me afigura que a arte de governar (decidir) e os motivos da decisão – primado político – estejam relacionados ou contidos em certezas científicas, e por estas submetido. Porque a realidade primeira e suprema parece ser esta: em qualquer situação, mesmo que conjuntural, os três momentos básicos que definem um “bom político” de um “lixo político” são as qualidades que lhe permitem ter uma boa percepção, um bom julgamento, uma correcta decisão – e nenhuma destes momentos básicos tem equivalente tecnológico de funcionalismo tecnocrático apriorístico.

Daqui haveremos de concluir quanto é frágil o conceito “funcionalismo tecnocrático financeiro” na prática “política” da Governação PSD/CDS. Se se pretende achar um fundamento funcionalista para a reactivação económica e social (reformas estruturais), e estas se têm por baseadas numa estrutura científica e em cálculos de probabilidades como nas teorias dos “jogos”, será então lícito pensar que estamos perante uma especulação, acaso aliciante como exercício mental, mas pouco ou nada produtiva como instrumento de avaliação, julgamento da situação, interpretação, previsão, ou seja, à mercê do lixo político que só poderá produzir lixo económico.

E contudo, perante realidades evidentes e insofismáveis, os teorizadores da ideia corrente do “sistema” – funcionalismo tecnocrático financeiro – (Governo PSD/CDS e a oposição PS) NÃO se sentem AINDA forçados a admitir a existência de “sub-sistemas”, numa classificação complexa, pesada, laboriosa, onde se distinguem os “sub-sistemas” do equilíbrio, ou o bipolar simples (finanças individuais – paz social), ou o bipolar rígido (expansão mesmo à custa de investimento público ou recessão com desemprego e caos social), ou o hierárquico (só uma economia saudável produz recursos financeiros e não o contrário), ou, por fim, o “sistema” dos “sistemas” que afirma encontrar-se o Estado de Direito em permanente luta e oposição a todos os demais.

E tudo isto leva os mercados financeiros institucionais (bancos) a interagirem, a observar, a calcularem os riscos de crédito; e os mercados especulativos a operarem ao sabor do imediato (em cima da hora). Não perceber isto é não perceber a substância das análises das agências de notação financeira que, por razões de pressão conjuntural, reflectem nos seus relatórios classificações do momento (possibilidade ou não do cumprimento dos créditos concedidos) mas tendo, sempre, em consideração o comportamento da economia a médio e longo prazo; em verdade, a mãe de todas as vicissitudes – positivas ou negativas – é a economia de onde resulta tudo o resto.

Pois bem. A apatia política da sociedade e a apatia política do PS leva-me a crer que bem podemos nos considerar viciados no “laissez faire, laissez passer” dos actos governamentais, e ao não reagirmos, seguidores do não movimento político como que dizendo: “o que é preciso é não ter medo do precipício e deixarmo-nos cair verticalmente no vício”.

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