Gente desatinada

Aires Antunes Diniz

Ouvem-se nas ruas, como se fosse a única verdade acerca do tempo, vozes que clamam de maneira bem audível contra os cortes sucessivos nos rendimentos do trabalho e das pensões. É o que um governo sem credibilidade vai fazendo como se fossem as reformas necessárias. Entretanto, jazem sem préstimo os livros textos de economia porque os professores que fazem o seu ensino, escolhidos sabe Deus como, ensinam coisas bem diversas e ao gosto de uma teoria oportunista. É o que a troika lhes manda dizer e alterar sempre que os humores dos merkosistas concluem que algo não lhes está a correr bem. Estranhamente, comportam-se todos como os estudantes eternos a quem “pouco cuidado lhe davam as faltas na Universidade…. (Mas que) Contudo, apesar de alguns anos perdidos, saiu de Coimbra, formado em direito. – Bacharel e inútil, como toda a gente, explicava sorrindo”1. E os homens da rua reparam que Passos Coelho se formou aos 37 anos sem que houvesse qualquer razão explícita para que isso acontecesse. Mas o povo português já está habituado a isso porque suportou “estoicamente” um agora estudante de filosofia em Paris.

Entretanto, a Segurança Social emite cartas para que os que descontam já para a segurança social paguem excessivamente sobre ganhos minúsculos de direitos de autor ou de quaisquer outras actividades paralelas, gerando raivas desconfiadas. Ouço.

E disto não falam os jornais. Fala-se só da mudança urgente para a TDT de toda a gente, com um mapa de transição feito com todos os rs e ss, mas sem assegurar que todos tenham acesso à informação e entretenimento como até aqui acontece. Uns inúteis aparecem até a dizer que só 85% dos portugueses ficarão servidos, ficando os outros excluídos: ou seja, mais de um milhão. Pior ainda esta nova tecnologia tem pior qualidade que a actual. E ninguém explica porque temos de mudar. Aparece só entre outros um anúncio enganador a falar da boazon, fazendo-nos intuir enganadoramente que se trata de boazonas ficando com elas tudo melhor e mais barato. Puro engano.

Alguns aparecem agora a falar do problema. São quase sempre presidentes de juntas de freguesia que, mais próximas das populações, são confrontados com as dificuldades, custos e deficiências desta “nova tecnologia” sem que percebam porque razão têm de mudar se estava tudo bem. E ninguém explica nada!

Talvez estejam à espera que com a extinção de freguesias fique tudo calado e fique tudo na paz dos cemitérios, excluindo os povos isolados de qualquer poder reivindicativo, dando conforto aos senhores que comandam o país e obedecem aos senhores do mundo. Têm estes só de uma visão simplista do mundo, mas que a sabedoria dos povos vai fazer cair por terra. Sabemos.

1 Luzia – Última Rosa de Verão (Romance), Livraria Portugália, Lisboa, 1939, p. 120.

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