Presidente da República não assumiu valores republicanos

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Foto Luís Carregã

As celebrações do 5 de Outubro, agendadas para esta quarta-feira (5), culminam um intenso ano de comemorações do primeiro centenário da República, que o historiador Amadeu Carvalho Homem classifica de positivo.

Que balanço faz de um ano de comemorações do 1.º Centenário da República?

O tema da República não é dos que possa ser encarado com total distanciamento crítico e, mesmo, com imparcialidade. Nesse plano, creio portanto que a comissão nacional e do seu presidente, o dr. Artur Santos Silva, conseguiram gerar uma dinamização que me parece suficiente. Julgo, portanto, que fizeram um trabalho honrado, dando o que podiam, desdobrando-se muitas vezes…

Já o Presidente da República não terá dado o que podia…

Sobre esse tema não gostaria, nesta fase, de me alongar. Mas sempre digo que qualquer análise estará sempre dependente da forma como o próprio Presidente encara a República, no plano histórico e ideológico. Isto porque a ideia que dá é que o Presidente terá intuído que a República e o republicanismo são um património exclusivo da esquerda, o que não é verdade. Eu conheço, aliás, muitos e bons republicanos cuja matriz ideológica se situa à direita.

Houve, contudo, uma significativa mobilização popular…

De facto, quem respondeu à chamada de forma espontânea e com inegável energia e alegria foram as organizações de base e estou a falar de juntas de freguesia, de bandas filarmónicas, de associações humanitárias de bombeiros voluntários, de ranchos folclóricos, etc. Isto significa que o grande aparelho de Estado e os seus protagonistas limitaram-se ao mero cumprimento formal das festividades organizadas. O que, tenho de confessar, deixa um certo amargo de boca.

Como avalia as iniciativas levadas a cabo em Coimbra?

As grandes iniciativas realizaram-se nas maiores cidades, em Lisboa e no Porto, que foi onde se concentrou um maior conjunto de meios, nomeadamente financeiros. Mas, no caso de Coimbra, foi possível fazer qualquer coisa de notável, sobretudo no 5 de Outubro de 2010. Na altura, recordo, resultou muito bem o apelo que foi feito aos cidadãos para virem para a rua festejar o Centenário da República.

Em Coimbra, foi importante o envolvimento da câmara…

É inegável que houve uma imensa capacidade de mobilização e de empenhamento, por parte, nomeadamente, do pelouro da Cultura. Foi uma colaboração iniciada ainda com o dr. Mário Nunes e depois prosseguida com a professora doutora Maria José Azevedo Santos. Ainda em Coimbra, gostaria de enfatizar também o esforço de uma outra entidade, extremamente importante para o sucesso das comemorações populares, que foi a Fundação Inatel.

E a universidade?

A Universidade de Coimbra levou a cabo uma grande iniciativa e pena foi que tivesse tido pouca visibilidade nos órgãos de comunicação social. Estou a falar da exposição “Ver a República”, organizada em cooperação com o Museu Nacional Machado de Castro e que decorreu em três pólos: a Biblioteca Geral da Universidade, o Museu da Ciência e o próprio Machado de Castro. Foi uma exposição muito visitada e que beneficiou ainda do trabalho de colaboração com as escolas. Para além disso, como aliás era a sua obrigação, a universidade também organizou alguns colóquios, de caráter científico.

Como aprecia o envolvimento dos órgãos de comunicação social?

Só posso ter palavras de agradecimento e apreço. Posso mesmo dizer que os órgãos de comunicação social locais fizeram sua a causa do Centenário. A nível nacional, como era de supor, travou-se um embate ideológico, sobretudo na RTP, com os céticos das virtualidades da República a sustentarem posições conservadoras e, nalguns casos, até a defenderem a causa monárquica.

Julga que se deveria ter ido mais longe no aproveitamento do meio televisão?

Acho que sim. E, sem querer parecer demasiado jacobino, digo que à televisão faltou apenas uma nota, a de pedagogia. Era necessário explicar muito bem, eventualmente com recurso ao contraditório, a distinção entre as duas formas de organização monárquica, a tradicional e a constitucional, e a organização republicana, e os seus eixos fundamentais e estruturantes: a educação para todos, o laicismo e a cidadania.

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