“Não sou contra uma só instituição, mas é necessário um estudo sério”

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Foto de Luís Carregã

Com uma vida profissional dedicada ao Centro Hospitalar de Coimbra (CHC), Rui Pato não repudia a fusão dos hospitais de Coimbra. Pode ser uma oportunidade para desta vez fazer de Coimbra a “Capital da Saúde”, afirma o ex-presidente do conselho de administração do CHC.

Concorda com a criação do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC), que resulta da fusão de três unidades hospitalares da cidade?

Concordo com todas as medidas que surjam para racionalizar os meios, para acabar com algum desperdício que exista, para tornar mais eficientes as instituições hospitalares de Coimbra. O CHUC é uma das soluções propostas. À partida não sou contra, desde que esta medida seja feita com base num estudo sério, sobre aquilo que cada instituição faz e pode fazer, sobre a maneira de integrar as instituições, de as interligar, de modo a que a rede hospitalar da cidade se torne mais eficiente. Não sou contra uma só instituição, desde que se respeite a cultura e o tipo de prestação de cuidados que existe em cada instituição, desde que haja o cuidado de respeitar aquilo que de positivo tem a sua cultura, e se faça um estudo sério sobre as áreas que devem ser articuladas, partilhadas. Isso, com certeza, vai aumentar a eficiência, diminuir o desperdício, a duplicação e as redundâncias que sempre existiram na cidade.

Considera necessário um estudo que aponte caminhos para a articulação entre estas instituições de saúde?

Sim, estudo esse em que participe a tutela, através da Administração Regional de Saúde, e as próprias instituições. O meu receio é que esse estudo esteja a ser feito por uma entidade que não conhece integralmente as instituições e que estas eventualmente possam não participar nesse mesmo estudo.

Admite, portanto, que existem em Coimbra áreas em que os recursos de saúde podem ser racionalizados?

Exatamente. No tempo em que era presidente do Conselho de Administração do Centro Hospitalar de Coimbra (CHC) – já com o prof. Fernando Regateiro nos HUC –, fiz uma proposta, na Administração Regional de Saúde (ARS), para analisarmos determinadas áreas que podiam ser racionalizadas, em que podia haver uma complementaridade, que eram os casos das maternidades, da cardiologia de intervenção e dos serviços de urgência. Na altura só não se avançou mais na concretização de medidas destas porque houve uma resposta negativa ao estudo destas propostas por parte dos HUC. Fomos nós que tomámos a iniciativa de levar estas propostas à ARS, com o objetivo de racionalizar e evitar algumas duplicações nos serviços de urgência ou nas maternidades, e porque entendíamos que tínhamos capacidade, no CHC, para dar resposta a todas as necessidades da cardiologia de intervenção.

Ou seja, apesar da discussão agora gerada, estas não são questões novas.

Não. Muito antes, no tempo em que o secretário de Estado da Saúde era o dr. José Martins Nunes, de Coimbra, num governo PSD, foi feito o Plano Integrado de Saúde da Zona Centro, que foi um estudo participado por todas as instituições da cidade, no qual se apontavam já caminhos para racionalizar a estrutura hospitalar da região. As instituições têm estado atentas a este problema, não foram apanhadas de surpresa. Só que estes processos devem ser feitos com as instituições, com respeito pelos profissionais, pelas características muito próprias das instituições, e todas elas deveriam participar, com as suas ideias, com os seus projetos. Ainda hoje vemos surgir projetos, nestas instituições, sem terem por base uma visão integrada daquilo que será o futuro CHUC.

“O mal da cidade foi não ter havido um planeamento”

Disse que existe, há muitos anos, a consciência que é possível racionalizar recursos. Contudo, isso foi feito apenas em casos muito pontuais.

O mal da cidade foi não ter havido um planeamento. A ARS nunca tomou conta daquilo que devia ser a planificação da oferta de cuidados, ou seja, estudar as necessidades de cuidados de saúde e adequar a resposta, para que não fosse excessiva e redundante. Se nos anos 70 ou 80 se justificava a existência de duas maternidades, neste momento não se justifica. Para o atual número de partos e exigências de qualidade, neste momento uma só maternidade consegue assegurar todos os cuidados. Para o número de urgências que há na cidade – que não são as urgências da cidade, são urgências da região, porque estes hospitais cobrem a região, de Aveiro a Santarém –, os dois serviços de urgência, como funcionam atualmente, são excessivos. O número de profissionais, de horas extraordinárias, de equipas a funcionar ao mesmo tempo, pode ser rentabilizado. Como? Partilhando serviços, dividindo valências? Isso é que tem que ser objeto de um estudo sério.

Porque é que este caminho não se iniciou há mais tempo?

Na minha opinião, grande parte das dificuldades residiram sempre numa dificuldade de diálogo com os próprios HUC. Estive em vários cargos de direção no CHC e na própria comissão que elaborou o Plano Integrado de Saúde da Zona Centro, e, quando se pensavam soluções de complementaridade, de articulação, sempre houve dificuldade em conseguir a colaboração dos HUC. A cultura ligada a uma certa aristocracia universitária que existe nos HUC fez com que sempre se tivessem distanciado de uma grande colaboração com o CHC. E por parte do CHC sempre se notou um receio muito grande, um pânico, em relação àquilo que poderia ser o domínio dos HUC, com o esmagamento consecutivo do CHC. Se por parte dos HUC houve sempre uma arrogância em relação ao CHC, por parte do CHC também houve sempre um receio, que nos fez viver sempre um bocado apagados. Outra das dificuldades foi a própria força das corporações.

O caminho da complementaridade parece obrigatório, atendendo aos problemas económicos do país e à necessidade de sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde (SNS)?

Eu próprio, quando estava no conselho de administração do CHC e já tentávamos iniciar um caminho de racionalizar recursos hospitalares – porque o meu próprio conselho de administração e a massa crítica do CHC sentia essa necessidade, porque o país não tinha recursos financeiros para aguentar alguma despesa que advinha de muitas redundâncias –, advoguei, e cheguei a dizer ao ministro Correia de Campos que devia haver uma medida da tutela que obrigasse a fazer essa racionalização de meios, porque se estavam à espera que espontaneamente fosse a região, ou mesmo a ARS, a fazer um estudo ou a promover as medidas, estas nunca mais avançavam. E esta é que é a minha grande mágoa, porque tudo isto que agora pode ser feito à pressa, e tenho medo que seja mal feito, podia ter sido feito pelas instituições, se as pessoas se tivessem entendido.

Hoje, responsáveis da saúde defendem abertamente a fusão ou integração de serviços, como por exemplo das maternidades de Coimbra, mas há algum tempo atrás era quase “pecado” falar nisso.

O que continua a ser um pecado é um hospital, destes três que constituem o CHUC, vir dominar os outros dois, sem respeito pelas outras duas instituições, que têm história e tradição e prestam cuidados com diferenciação. Admito, e até acho útil, que haja um único conselho de administração que coordene estas instituições. Mas que haja respeito pela diversidade, pelas valências diferenciadas destas instituições, e que se aproveitem as potencialidades destas complementaridades. E foi sempre este o receio: pensava-se que não seria uma fusão, mas um tomar conta. Quando se fala na racionalização dos meios, em redimensionar o número de camas e de serviços, não quer dizer que o que é excessivo está nos Covões, pode estar nos HUC. O nível de cuidados em alguns serviços dos Covões era tão bom ou melhor do que aquele que era prestado nos HUC, com o mesmo número de profissionais e com muito menos camas, ou seja, com maior eficiência. Embora não houvesse por parte do hospital universitário uma grande vontade de colaboração e de complementaridade com o CHC, os HUC sempre tiveram os olhos postos no Hospital Pediátrico. É uma valência que nunca tiveram e isto é um elo fraco para um hospital universitário. Esta integração faz um jeito enorme a alguns espíritos mais ambiciosos dos HUC e um dos receios é que possam querer ficar com o hospital pediátrico e tentar descartar o resto.

É importante que as instituições discutam abertamente estas questões?

Aquilo de que me tenho apercebido é que o CHC deixou de trazer ideias para o debate. Nunca ouvi a opinião que os dirigentes do CHC têm sobre esta questão e eles deviam ter tomado conta desta agenda logo que se afigurou que isto ia acontecer, e não enterrar a cabeça na areia e deixar que outros decidissem por eles.

Até porque o avanço deste processo de fusão pode ser inevitável?

Tenho a certeza que é inevitável. E o meu receio é que isto seja agora decidido à pressa, sem um estudo com a participação de todas as instituições.

Justifica-se, na sua opinião, que o IPO tenha ficado de fora do CHUC?

Não percebo porquê. Se, de facto, o IPO tivesse toda a área oncológica da zona Centro, até entendia. Era um hospital de uma só especialidade. Mas eles fazem uma pequena parte da oncologia da zona Centro, a maior parte é feita nos outros hospitais, de Coimbra, Leiria, Viseu. E o IPO tem recursos fundamentais, como por exemplo a radioterapia, que os outros hospitais que têm oncologia necessitam de utilizar. Talvez compreendesse melhor que tivesse ficado o Centro Hospitalar Psiquiátrico de fora do CHUC, porque existe uma lei e um plano nacional específico para desenvolver a área da saúde mental.

Acredita que continuaremos a ter um SNS com a mesma qualidade?

Tenho muito receio, há medidas que estão a ser tomadas que me preocupam. Nós não podemos manter um SNS insustentável, os recursos são finitos. É necessário tornar o SNS sustentável e, para isso, será necessário modificá-lo, estudar bem aquilo que se gasta. Para bem do SNS, e para que ele continue a ser uma das conquistas de abril, e das mais importantes, é necessário arranjar meios de ele ter sustentabilidade, senão acaba mesmo. É necessário que todos colaboremos para que o SNS tenha viabilidade. Mas se isso não for feito com alguma prudência, pode ser muito perigoso e prejudicar grandemente a sua qualidade.

Pode exemplificar?

Por exemplo, não sou contra a medida de diminuição dos incentivos aos transplantes. Acho que se podem fazer os transplantes que se fazem, com a mesma qualidade, ou até fazer mais, diminuindo esses incentivos. E se havia serviços que auto-investiam esses incentivos no próprio serviço, noutros eram apenas para distribuir pelos recursos humanos. Todos os portugueses têm que ter consciência, e os profissionais de saúde também, que estamos a viver um momento de crise e que vamos ter que fazer o mesmo, ou mais, com menos dinheiro. Agora já me preocupa quando ouço dizer que os doentes asmáticos, que são milhões, vão deixar de ter medicamentos comparticipados, fármacos que são vitais para a sua vida e numa área farmacêutica em que não existem genéricos. É necessário ter cuidado com as medidas que vão ser tomadas. E é necessária ponderação dos profissionais, que estão reunidos em torno de corporações que são fortes e que se defendem. Grande parte dos profissionais de saúde, comparando com outros profissionais portugueses, é bem paga. E é necessário que as ordens e os sindicatos tenham consciência que vamos passar por um período em que eles também têm que fazer alguns sacrifícios.

É necessário, portanto, ponderar as medidas?

Se há áreas em que se pode reduzir a despesa do SNS desde que se tenha a colaboração dos profissionais e a colaboração da indústria farmacêutica, já retirar comparticipações de certos medicamentos ou fazer despedimentos cegos de profissionais tem consequências mais graves. Nesta fase era fundamental aproveitar a capacidade instalada do SNS e rentabilizá-la, e, por exemplo, não ter hospitais com laboratórios que fecham às duas da tarde. Mas isso é incompatível com o despedimento de profissionais.

O ministro afirmou que muitos dos hospitais EPE estão tecnicamente falidos?

Não sou economista, não sei bem quando é que se considera uma instituição tecnicamente falida. O que sei é que a maioria dos hospitais EPE está a acumular sempre um défice. Mas o que o senhor ministro não disse é que os hospitais têm sofrido um subfinanciamento, nos contratos-programa que assinam com a tutela, e que o maior cliente dos hospitais, que é o próprio Estado, não paga aos hospitais.

Coimbra “cristalizada”

Acha que Coimbra tem tido dos sucessivos governos a atenção necessária?

Acho que não. Sinto, desde há muito tempo, que esta cidade tem vindo a morrer, é uma cidade sem massa crítica, sem indústria, que vai ficando cristalizada em volta das instituições de ensino e de saúde. E com muito pouco respeito por parte da tutela.

Mas Coimbra tem alguns bons exemplos.

No ensino e na saúde, mesmo as novas empresas de tecnologias de ponta estão ligadas à universidade.

As forças vivas da cidade têm consciência desta situação? Qual é a solução?

Se têm, não o demonstram. Não tenho visto que haja um verdadeiro movimento cívico da sociedade da cidade para tentar inverter esse caminho desolador. A solução não sei. Fazer um polo importante de saúde e de ensino, com áreas de referência importantes, podia trazer um maior desenvolvimento da cidade, que vive quase exclusivamente destas duas áreas. Agora, com a instalação da crise, penso que a saúde e o ensino não vão melhorar mais do que já estiveram; pode até haver uma certa estagnação.

Existia, para Coimbra, a ideia de a desenvolver como “Cidade da Saúde”.

Sim, mas essa ideia nunca foi para a frente. Talvez por as instituições de Coimbra estarem de costas voltadas, por os profissionais, sobretudo os responsáveis pelas instituições, pelos serviços, nunca utilizarem a escala para fazer grandes projetos. Quando fazem um projeto, uma investigação, fazem com os seus profissionais, os seus doentes, os seus amigos, em vez de estender isso a uma escala da região, com a colaboração de outros hospitais, até de outras cidades. Sempre sofremos deste mal de sermos muito paroquianos e estamos a sofrer as consequências disso.

Qual poderia ser a estratégia?

Os responsáveis da saúde podiam aproveitar este momento de crise e de reestruturação dos serviços para os encarar não como uma desgraça, mas sim como um desafio, e tentar de facto criar em Coimbra um polo importante de saúde, com áreas de referência nacional, que o são. Com protocolos com outras instituições, nacionais e internacionais, no sentido de captar a diferenciação em determinadas valências, e conseguir, com isso, ter meios alternativos de financiamento das próprias instituições. Para isso é necessário que todas as instituições se entendam, façam projetos conjuntos, deixem as pequenas rivalidades, e passem a colaborar no sentido de criar, aqui e agora, um grande polo de saúde, de ciências da saúde – e não três ou quatro “polozinhos” –, que tenha uma dimensão que ultrapasse o largo da Portagem. É necessário mudar mentalidades e uma colaboração estreita entre as pessoas no sentido de vencer este mau momento. Isto lança um desafio às instituições da cidade para de facto agora se poderem juntar e tornar Coimbra a “Capital da Saúde”. Porque agora vão ter a partilha de todos os seus recursos.

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