A autarquia não merece a cidade

João Boavida

A autarquia de Coimbra não merece a cidade que tem. Esta é que é a verdade, e há muitos anos. O mesmo se poderá dizer de muitos dos seus habitantes, por certo, mas ela tem especiais responsabilidades pelo facto de ser o Governo da Cidade. A Autarquia devia ter brio; pelo que a cidade vale e pelo que pode valer. Mas não. Pelo contrário, encosta-se à cidade que tem e vive dos rendimentos, gozando as vantagens. Que, pouco a pouco, acabam por não ser. E ninguém a chama à ordem, porque o sistema que produziu a situação continua a alimentá-la. Não é preciso andar nos corredores do poder autárquico para ver isso. E talvez não seja em todos os sectores, não quero ser injusto, mas noutros basta andar pelas ruas e ver, ler os jornais, ouvir este e aquele, para concluir o suficiente.

Digam-me onde haverá uma cidade, com um rio com tanta água, e tão perto, que deixa secar no Verão as árvores que se plantaram no Outono? É vê-las, na Primavera, verdes e florescentes, e depois a amarelecer, a perder folhas à torreira do calor, acabando por morrer muitas delas. Como é possível, ano após ano, havendo um vereador desta área e profissionais camarários contratados para estes trabalhos?

Onde é que há uma cidade que, tendo ao lado parques de estacionamento de qualidade, deixa que a avenida da Lousã, uma via de escoamento de trânsito, quase uma circular interna – onde é explicitamente proibido parar – tenha na berma um parque de estacionamento selvagem? E a criar contínuas situações de acidente com as manobras de entrar e sair? Talvez não seja atribuição da Câmara. Mas então será da Polícia Municipal. Ou não? Para que é que esta foi criada? Talvez seja da PSP. Também não? Não será de ninguém, então. A responsabilidade daquela “montra” da cidade não deve ser de ninguém, pelos vistos.

Jornais recentes noticiaram que cento e dezasseis funcionários da Câmara de Coimbra trabalham também no privado. Só?, disse alguém ao meu lado, que ouvia a notícia. Noutras cidades ainda é pior. E como reconhece o Inspetor Geral da Administração Local, há, neste campo, «uma ausência de fiscalização efectiva». Pois. E nos outros campos, haverá? Mas isto implica, necessariamente, uma «envolvente nebulosa» e «alegados ilícitos de diversa natureza», como ele acrescenta. Claro, era inevitável e os legisladores deviam sabê-lo.

Primeiro vai-se aos trabalhos do privado, depois, quando houver tempo e disposição, aos assuntos públicos, para os quais os funcionários municipais foram contratados, não esquecer. Pondo de lado o facto, importantíssimo, que é uma porta aberta para a troca de favores, facilitações, cunhas, ”luvas”, e tudo o mais que se sabe. Ou seja, prejuízo público e desconsideração pela comunidade e pela cidade. Que fica a ver passar os comboios. É obvio que tudo o que seja projectos, inovações, atenções e cuidados, para não falar de obras de maior envergadura, não pode despertar grande entusiasmo em quem está a tempo parcial, mas ganhando a tempo inteiro.

Por todo o País deve ser o mesmo, mas, pelo menos, em muitos lados vemos cuidado e qualidade e aqui não. A mudança de presidente não é pois suficiente. Embora um bom general faça, dos fracos, homens valentes, e um mau comando transforme em fraca a forte gente, precisamos de uma mudança mais profunda. Toda a equipa a votos, de quatro em quatro anos! Quem pega na ideia? Há demasiada gente acomodada em Portugal. Como um dia ouvi a duas velhotas que se cruzaram, na rua: «Como vai isso?», pergunta uma. Responde a outra: «Oh, está tudo podre… mas andamos de saúde». É a imagem de Portugal, com Coimbra a “caprichar”.

5 Comments

  1. Lino Romão says:

    E onde há 1 cidade que tem a avenida de acesso aos HUC plena de regadeiras, do princípio ao fim, provocadas pelas empresas de telecomunicações que ganham milhões?

  2. Lino Romão says:

    Onde é que há uma cidade que tem na sua baixa um património histórico riquíssimo mas totalmente despovoada e sem segurança? Onde está a cidade que coloca numa margem do mondego um urso e porquê um urso em vez de 1 estudante? Qual é a cidade que colocou noutra margem do mondego um miudo em cima de um piano, em vez de uma lavadeira do mondego? Qual é a cidade que concedeu uma das suas mais bonitas praças a um papa que por aqui passou uns minutos, em detrimento de tantas ilustrissimas figuras da nossa história coimbrã que por cá viveram e trabalharam? Qual é a cidade do pais que tem um hospital que serve milhões de pessoas mas cuja avenida de acesso esteve parcialmente impedida durante largos meses por causa de uma obra supostamente ilegal?

  3. isabel oliveira says:

    Continua a ser Coimbra no seu melhor!!!!! E dizem que é com Coimbra que se vai sair da crise! Não sei como?

  4. Luis Machado says:

    Li agora num fórum cá desta cidade um alerta que, no mínimo, não deve deixar de ser divulgado. Ora, deixo aqui um link para esses factos assustadores, bem demonstrativos da INCOMPETÊNCIA (para não dizer pior) da Câmara de Coimbra………. droga = avenida da guarda inglesa / centro de congressos: http://www.forumcoimbra.com/forum/viewtopic.php?f

  5. isabel oliveira says:

    Infelizmente a questão da droga e os ambientes gerados pela pratica do seu consumo… mas que são alimentados pelo abandono total de tais locais, que depois de serem obrigatoriamente construídos, não são devidamente acompahados e fiscalizados pelas entidades competentes, nomeadamente das que têm o conhecimento das mesmas, até pela sua inventariação (?), neste a caso a c.m. de Coimbra. É uma vergonha… bom trata-se da margem esquerda do Mondego!

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