António Carvalho, o último dos mestres latoeiros de Viseu

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O mestre António Carvalho, o último latoeiro de Viseu, tem a bigorna, “talvez centenária”, do lado direito, a fieira, máquina onde talha as suas peças únicas, à esquerda, mas se olhar em frente não encontra futuro para esta arte.

Sentado na sua banca, com as ferramentas pousadas em frente, alicates, tesouras… e 76 anos em cima, rodeado de peças que só ele faz, o mestre Carvalho já nem olha para a parede traseira da Sé de Viseu que quase lhe entra porta a dentro, mas o que ele queria mesmo era uma saída para manter vivo o ofício.

Das lamparinas novas aos candeeiros antigos, das almotolias velhas aos regadores atuais, a sua loja é uma máquina de viajar no tempo, mas só para trás, porque para a frente não vê nada.

E lamenta que assim seja, porque os filhos e os netos de António Carvalho nada quiseram com esta profissão nem vislumbra nos jovens de hoje “quem queira este ofício”. É o último dos mestres latoeiros de Viseu.

A oficina está nas suas mãos há 53 anos como conta à agência Lusa, enquanto amacia a chapa flandres entre o martelo e a centenária bigorna, que “já vem de muito longe”, porque os anteriores donos “eram gente antiga e não tinham sido, sequer, os iniciadores do negócio”.

 

A história de mestre António Carvalho é feita tanto de tenacidade como de casualidade. Começou a arte pelo fabrico de caleiras para as casas mas a saúde trocou-lhe as voltas e obrigou-o a ficar mais tempo sentado, circunstância que o guinou para a criação de peças mais cuidadas, mais especiosas, onde “o detalhe é tudo”.

Estamos a falar de pura criação no caso das lamparinas ou alguns tipos de candeeiros, mas estamos também a falar de um trabalho onde António Carvalho assume uma condição de guardião de memórias, ao fazer réplicas de peças quase perdidas – porque só existem em fotografias ou as que existem já não podem ser recuperadas e, a partir delas, faz cópias “com todo e o mais ínfimo detalhe”.

Muitas casas que foram recuperadas para turismo rural ou de habitação tiveram no mestre Carvalho o recuperador de outros tempos em peças de latoaria quase perdidas. Um pouco de todo o país lhe chegam às mãos encomendas para garantir que esta ou aquela peça ganha vida ou é replicada.

Mas os tempos são hoje outros e, confessa o mestre, trabalha mais “para as prateleiras” sempre cheias, porque é assim que gosta de as ver, embora não se queixe muito porque aqui e ali vão saindo, mesmo que com regateio pelo meio sobre preços que podem ser inferiores a 30 euros para peças que levam “horas a fio” a construir.

Situada a escassos metros da Sé de Viseu, numa zona onde, nos últimos anos, surgiram dezenas de bares e restaurantes, a oficina/loja de mestre António Carvalho é, tal como ele, uma resistente, não só por ser apetecível para mudar de ramo, mas também porque “os jovens não se comportam como deviam” e a sua montra já foi partida várias vezes.

António Cardoso tinha 12 anos quando começou a trabalhar na chapa, tem 76 e tem pena de, “quando faltar”, não haver, para já, quem lhe siga os passos: “Penso muitas vezes que isto (a oficina) só vai durar o tempo que eu durar”.

Mas deixa um desafio “a quem de direito”, que é simples. Está disposto a ensinar um jovem que queira aprender a arte, desde que seja remunerado pelo tempo que vai gastar.

E, como não pede nenhuma fortuna, remata: “Pois que venham ter comigo e, como com a chapa flandres, moldam-se as vontades às possibilidades!”.

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