“Continua a olhar-se para a cultura como um ramo de cheiros”

Foto de Luís Carregã

Criador e produtor, Albano Silva Pereira marca há três décadas – com os Encontros de Fotografia de Coimbra – o panorama cultural da cidade. No Centro de Artes Visuais, a viver “momentos dramáticos” herdados de cortes e incumprimentos sucessivos nos apoios da autarquia e Ministério da Cultura, cumpre-se um programa de rigor e qualidade mas reduzido ao “possível”. Em entrevista, o fotógrafo fala da importância da cultura “para lá dos números”, destaca a “postura nova” do presidente da Câmara de Coimbra e afirma a “esperança possível” nos responsáveis nacionais pela Cultura e Educação.

O Centro de Artes Visuais (CAV) acabou de concretizar um projeto – “Ao Espelho da Sereia” – que se arrastou por sete anos?

A cidade não pode continuar a viver do passado e das memórias do passado. A cidade tem de olhar para o seu futuro e o seu futuro é contemporâneo. E é esta componente simbólica que é importante relativamente à arte contemporânea. O parque escultórico de Rui Chafes – um artista de referência na cultura nacional e internacional – no Jardim da Sereia é património da cidade. Que a maior parte da população nunca viu, ou porque têm medo de ir à Sereia ou porque não conhecem.

E agora que o projeto foi inaugurado?

Espero agora decisões urgentíssimas sobre a recuperação do Jardim da Sereia. Já houve um gesto muito importante na revivificação do jardim, com a casa de chá, mas tem de se ir mais longe. Havia um pequeno parque infantil junto ao lago, é outra forma de revivificar, naturalmente com equipamentos integrados em relação ao espaço. Temos um pulmão verde, um espaço de lazer, não podemos deixá-lo ao abandono.

A cidade não pode continuar a ignorá-lo?

Hoje o tempo é de sofrimento e de tensão. Este tipo de espaço é cada vez mais importante na vida das pessoas, devem substituir as toneladas de ansiolíticos que se prescrevem. É fundamental ter jardins e arte que nos leva a sonhar e nos apazigua nas mágoas e no sofrimento. E esta cidade tem de olhar mais para as pessoas, para os jardins, para as atividades culturais, porque, infelizmente, nos últimos anos a construção e a arquitetura da cultura foram centros comerciais. Descurou-se gravemente e violentamente a fruição da cultura e isso só pode inverter-se com a participação das escolas, com parcerias entre a autarquia e A Escola da Noite, o Centro de Artes Visuais, O Teatrão, a Orquestra Clássica do Centro. Oferecendo atividades extracurriculares que sejam institucionalizadas junto das escolas, porque esse é que é o futuro da cidade, como é o futuro do mundo. É ai que está o equilíbrio das pessoas.

E é possível esse encontro?

É possível se quisermos que seja. Eu ando há anos a propor à Direcção Regional de Educação. Todos os mailings de todas as nossas exposições vão para diretores das escolas, para os professores de educação visual das escolas do concelho.

Qual tem sido a resposta das escolas?

A resposta é fraca. Embora haja visitas guiadas, com pessoas e escolas que respondem. Mas são poucas, uma minoria. Da mesma forma que a universidade. Particularmente os professores deviam sensibilizar os seus alunos, porque estamos a transformar pessoas em números.

Uma realidade cada vez mais visível?

Isso vê-se hoje, com a economia transformada na verdadeira cultura desta crise, com os gestores e os economistas que nos deixaram neste buraco tremendo. Por falta de humanismo e por falta de cultura. Continua a olhar-se para a cultura como um ramo de cheiros, mas a cultura é uma componente estrutural do desenvolvimento. Do desenvolvimento humano, do desenvolvimento de uma sociedade, em termos éticos e em termos estéticos. Uma cidade não se desenvolve, não se equilibra sem cultura. Com pessoas que só sabem de números ou que só sabem de medicina. Se não se humanizam – e as pessoas só se humanizam pela cultura – o equilíbrio não é possível.

Hoje precisamos de mais do que o que nos consome os dias?

Absorvidos com a sobrevivência, com os impostos, com as prestações, precisamos absolutamente de olhar para as pedras, para a água, para o céu, para as estrelas, para a natureza, para a cultura. Porque esse é o reduto que nos pode salvar, que nos redime, é o melhor ansiolítico para contrariar muitos dos grandes desequilíbrios e da violência de hoje. Porque quando olhamos para a arte, olhamos para o sonho, para o simbolismo, para o mundo subjetivo dos artistas, seja na música, seja na fotografia, seja na pintura, seja na escultura. E as escolas sempre tiveram aqui um papel deficitário. Já que não o fizemos no passado, façamo-lo agora, com as crianças.

CAV com orçamento cortado em mais de 40 por cento desde 2005

Acredita que isso é possível, agora, com a nova equipa governativa?

Acredito, com o novo ministro da Educação, acredito. Acredito que um homem – que eu não conheço pessoalmente, mas que conheço publicamente e de ler –, com a qualidade de pensamento que já demonstrou irá, dentro dos meios disponíveis, promover a integração necessária dentro das escolas, porque não há outra forma dos alunos evoluírem e se formarem integralmente. Não sem o conhecimento da cultura, da arte contemporânea, como da arte clássica. A história da arte tem de ser reformada. Nós temos de aprender a viver com o nosso tempo. E a arte contemporânea é o nosso tempo, a arte contemporânea não são objetos excêntricos, vêm do coração e da reflexão dos artistas, que têm medo, que têm coragem, que sofrem, que são seres sociais e que exprimem, os melhores, pelo menos, grandes lições de vida. É preciso é que as saibamos compreender. E mais do que isso, ajudam-nos, reconfortam-nos, identificam-nos. E isso é uma coisa extremamente importante.

A compreensão da arte contemporânea é um dos objetivos do Centro de Artes Visuais?

Quando construi o Centro de Artes Visuais, a programação foi feita a pensar nas pessoas, na fruição e na compreensão da arte contemporânea. Porque tudo o que eu faço, que o CAV faz, destina-se à comunicação. E só assim faz sentido e por isso mantenho esse esforço de comunicação a vários níveis, mesmo dentro das dimensões financeiras insuficientes e extremamente reduzidas desde 2005, altura em que foi cortado ao Centro de Artes Visuais mais de 40 por cento do seu orçamento. O projeto para essa comunicação necessária era abrir às 14H00 e encerrar às 02H00. Mas esse propósito rapidamente foi abandonado, porque não tem sido possível em termos financeiros. O resto tem sido possível também graças a uma equipa, que trabalha comigo com uma imensa coragem, prescindindo muitas vezes dos seus direitos. Mas é necessário que consigam gerar-se sinergias relativamente à autarquia, à Direcção Regional de Educação, às escolas… E se fosse na Alemanha, na Dinamarca, em França, em Espanha, a história era outra…

É também por essa razão que o presente desses países é outro que não o nosso?

É outro, é evidente! Em termos económicos e em termos de desenvolvimento. Porque é outro em termos de educação. Porque a cultura é, por excelência, um meio de civilização, de civilidade, um instrumento importante de educação e de ética. E de promoção do país, e da cidade. Não é só fazerem-se cartazes três vezes por ano para a Rainha Santa e para o futebol. Mas as pessoas continuam a não perceber isso.

E se olharmos para o passado recente de Coimbra, há o exemplo provado anos a fio dos Encontros de Fotografia?

Exatamente. Encontros de Fotografia de Coimbra que acabaram por causa de 500 mil euros. Mas que traziam à cidade dividendos e projeção nacional e internacional como mais nenhum evento antes ou depois. E gostava também de falar no plano económico. Continuam muitos a insistir na questão da subsidiodependência na cultura. E parece que só na cultura é que somos subsidiodependentes. Mas na agricultura ou na indústria – que recebem muito mais incentivos (e aqui já são incentivos e não subsídios) – não. É que os governantes, grande parte dos governantes – não todos, porque há alguns excecionais, como um senhor chamado Manuel Maria Carrilho –, não perceberam ainda que a cultura é um investimento que gera dividendos cada vez mais importantes.

Exemplos desses dividendos?

Muito claramente. Dos 500 mil euros que o Centro de Artes Visuais recebia – antes dos cortes e dos diversos incumprimentos da câmara municipal (que agora já demonstrou querer resolver) e, mais recentemente, do Ministério da Cultura, com a anterior ministra a reduzir a verba protocolada de 300 para 250 mil euros, ainda por cumprir e sujeita a uma adenda ao protocolo até 31 de dezembro deste ano, ao invés da sua necessária renovação –, para pagar todo o funcionamento do edifício [de 1.600 metros quadrados], com as pessoas que lá trabalham dentro, com a programação, mais, seguramente mais de 60 por cento desse financiamento público vai para as empresas, entra diretamente no tecido económico da cidade. Ainda não olharam para os indicadores da União Europeia, ainda não perceberam que, sejam 10, 20, 30, 40 ou 50, a maior parte do orçamento é para pagar tipografias, hotelaria, restauração, transportes, seguros, material expositivo e pessoas, com o emprego de todos os que lá trabalham. E continua a ter-se a visão de que a cultura se resume à subsidiodependência. Como ainda não se percebeu que o mecenato serve para promover as empresas, para as associar a projetos e instituições com prestígio e essa é uma forma de marketing que grande parte dos empresários ainda não percebeu, particularmente em Coimbra, mas também no resto do país, com exceção das grandes, grandes empresas, estas associadas a grandes projetos como Serralves ou o CCB.

Os projetos culturais vão confrontar-se com nova regulamentação, nomeadamente ao nível da segurança social e do fisco?

A nova legislação vem acrescentar problemas complicadíssimos. Porque o recibo verde era a solução da sobrevivência. Agora, o Estado, que não cumpre, vem exigir uma obrigação e uma data rígidas para o pagamento às finanças e à segurança social. Quando continua a levar meses, às vezes anos, a financiar as instituições. Eu não tenho dúvidas nenhumas que, à exceção de Serralves, da Fundação Berardo e de instituições como a Gulbenkian ou a Culturgest, é muito difícil sobreviver. E a sobreviver é com o risco de cometer crimes com as finanças e a segurança social. Infelizmente esta é a realidade. Se melhorou algumas coisa ao longo das últimas décadas? Melhorou, é um facto. Por exemplo a rede de cineteatros, as bibliotecas, as infraestruturas de uma forma geral. Mas cada ministro que chega faz um novo regulamento, nomeadamente a nível financeiro, com a sistemática mudança de regras. E isto é triste, violento e injusto. É por essa razão que a cultura em Portugal é feita por meia dúzia de loucos, que o continuam a ser.

Como é que esta situação se resolve?

O mínimo que se exige é clareza e respeito pelo trabalho dos criadores e dinamizadores culturais.

A alteração é possível com a nova equipa governativa responsável pela cultura?

Eu espero que sim. Mas já tive tantas desilusões nos últimos anos e desilusões surpreendentes, de pessoas que, de facto, tinham condições e história para gerirem a cultura com outra seriedade e outro respeito, como o caso do ministro Sasportes – ocorre-me este, mas são inúmeros –, que quero acreditar que o novo secretário de Estado tem todas as condições, com a sua história enquanto homem de cultura, enquanto criador e enquanto gestor, desde a revista Ler até aos programas televisivos. Francisco José Viegas tem dado provas de ser um homem sério, equilibrado e, sobretudo, um homem educado. Sendo um homem do meio tem toda a obrigação de ouvir os intervenientes e promover o diálogo sério e aberto. E que as decisões se baseiem numa história, num património e sobretudo num trabalho desenvolvido e na importância que as instituições têm na descentralização. Porque o país não pode continuar a ser Lisboa e o Porto, não pode resumir-se a Serralves e à Fundação Berardo, não podem continuar a ser estes a terem os financiamentos substanciais. Nos tempos que vivemos é fundamental que sejamos todos solidários, mas de forma equitativa e justa, dividindo os riscos por todos.

A cultura continua a ser zona de sacrifício?

Continua. Mas eu pergunto-me porque que é que continuam a fazer-se cortes abissais na cultura, tendo a cultura um orçamento já tão reduzido, com cinco delegações do Ministério da Cultura, num país com 500 quilómetros e as dificuldades endémicas que agora todos vemos agravarem-se.

Não concorda, portanto, com as direções regionais de cultura?

Eu concordo. Mas, naturalmente, menos, com outros meios, com outras competências e com outra gestão. É que, em vez de financiarem, de ajudarem e apoiarem os agentes culturais e os projetos que merecem ser apoiados, as delegações já produzem os seus próprios projetos, já pretendem ser criadores, já pretendem ser produtores. A meu ver, não é esse o papel das delegações do Ministério da Cultura. E quanto é que custa o funcionamento destas cinco delegações no quadro do orçamento da cultura? Aqui está um elemento sobre o qual há que refletir. Embora esta não seja uma reflexão nova, porque este é um pouco o caso dos governos civis.

A reboque da crise, as direções regionais de cultura podem ter o destino dos governos civis?

Esta é uma reflexão necessária e urgente. Porque este desmembramento – como o da economia e outros – sem regionalização não faz qualquer sentido. É uma contradição e uma ambiguidade. Depois só serve para mais burocracia, para gastar mais meios que o Estado não tem e para empregar apparatchiks. Vem o PS nomeia um delegado, vem o PSD nomeia outro delegado. E isto não é racional, nem é ético. Isto com todo o respeito e amizade que eu tenho por várias pessoas que sempre me trataram com grande estima. Agora, temos de olhar de outra forma para as coisas. É fundamental que se faça, sobretudo em tempos de grandes dificuldades financeiras.

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