O duplo aperto

João Boavida

Se Portugal está entalado entre um liberalismo à solta e um sindicalismo de Estado, a esquerda, por sua vez, está entalada entre um capitalismo que lhe escapa e um proletariado que lhe foge. O capitalismo escapa-lhe de duas maneiras. Ou porque é demasiado rico e ultrapassa as nossas medidas e fronteiras e, portanto, as possibilidades de acção do nosso sindicalismo; ou porque é um “capitalismo” economicamente débil, e muita da acção grevista e sindical corre o risco de destruir o pouco que resta, aumentando a crise e o desemprego. Esta situação deixa a esquerda a clamar no vazio, mas, por isso mesmo, mais perigosa.

A crise internacional foi o resultado de jogadas da grande finança americana, e do negócio desenfreado dos créditos, que, multiplicados até ao infinito, levaram a economia até à pura virtualidade, sem os pés na terra e sem correspondência com a produtividade. Mas o negócio dos créditos desaustinados e dos consumos furiosos é uma música demasiado agradável para todos os ”proletariados” do mundo, que entram, assim que podem, ou julgam poder, na máquina do consumo e, claro, do endividamento, que é um grande negócio para o capital. Por este lado o capitalismo tem ainda um imenso campo de expansão.

Mas, pelo lado dos “trabalhadores” ocidentais abundam os motivos de preocupação, sobretudo pelo aparecimento em cena dos chamados países emergentes. Isto é, enormes massas populacionais (chinesas, indianas, brasileiras, vietnamitas, etc.) estão a entrar no consumo, mas também a produzir em grande quantidade, para eles próprios, mas, sobretudo, para todo o mundo, e a custos baixíssimos, o que põe em causa as economias europeia e americana. Face à concorrência dessa produção demasiado barata, os nossos industriais têm transferido muita produção para o Oriente, deixando o Ocidente em crise e os trabalhadores sem poder negocial. Se juntarmos a isto o facto de Portugal ter um tecido produtivo de pequenas empresas que a burocracia, os encargos e os atrasos nos pagamentos trazem quase sempre de corda na garganta, concluímos que o discurso da nossa esquerda pura e dura não tem aqui grande campo de aplicação.

Assim, a esquerda comunista está entalada entre uma memória que se esvai e um futuro que se esfuma; a memória de uma realidade que deixou de ser e um futuro que ninguém sabe como será, mas não promete muito. Acusar o PS, como faziam, de políticas de direita, é irrealista. E as pessoas, mesmo sem grandes análises, têm noção disto. A constante redução dos votantes da esquerda ortodoxa prova que o discurso esquerdista roda cada vez mais no vazio. A realidade em que a sua ideologia se formatou deu uma grande volta e é preciso uma teoria consistente e adequada que encontre soluções para os problemas que hoje se colocam. Isto não quer dizer que não haja razões para combates de esquerda. Há. A exploração de muitos trabalhadores e de muitos jovens, está aí e é razão suficiente, mas não acertar com o inimigo nem ter atenção aos contextos é o pior de tudo. Não adianta tocar mais o antigo disco, ainda por cima já partido. O discurso de esquerda que ouvimos a toda a hora leva ao engano porque não condiz com a realidade, e corre o risco de continuar a ser, através de sindicatos privilegiados e de certas frentes de luta, que só lá estão para isso, uma força de desorientação e de desmobilização. E portanto perigosa para um país em coma.

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