Maniqueísmo científico

Massano Cardoso

Há tempos, num sábado, li uma notícia, mais uma, a testemunhar que o café faz bem à saúde; previne o cancro do fígado, afirmação feita por um reconhecido hepatologista nacional. No dia seguinte li que “beber café, assoar-se ou a intensa ação física durante o sexo são fatores que propiciam mortes súbitas, segundo médicos britânicos”. Na sexta-feira tinha comentado, enquanto presidente de uma mesa-redonda, que é preciso acabar com a ideia de que os produtos alimentares devam ser considerados como medicamentos. O café passou a ser medicamento, o chá também, o mesmo acontece com o vinho, com o azeite, com as beldroegas, com o chocolate, com a hortelã-pimenta, com as nozes, com as bagas silvestres, com os peixes gordos, e com um sem número de outros produtos. O melhor é passar a vendê-los nas farmácias ou, então, criar um setor nutracêutico nas grandes superfícies. Um perfeito disparate, mas como dá dinheiro toca a conferir-lhes esse estatuto.

Uma dualidade incrível, já que o mesmo produto tanto pode fazer bem como fazer mal. É natural que assim seja, a virtude e o defeito são duas faces da mesma moeda. Muitos não sabem utilizá-la, entretendo-se a lançar ao ar para depois verem o que é que dá: “bom” ou “mau”. Não há alimentos, ou produtos alimentares, bons ou maus, o seu uso, ou abuso, é que pode ser positivo ou negativo.

As virtudes ou os defeitos não estão nos produtos, mas sim nas cabeças de quem aceita ou acredita nas balelas que lhes são vendidas. Vejam lá esta do café, num dia faz bem, noutro já pode fazer mal. Que parvoíce. O que interessa é que seja bom e que não abusemos em função das nossas características e idade. Nada mais.

Quanto ao assoar-se ser considerado um fator de risco cardiovascular deixa-me intrigado. Como é possível? Será que temos de andar ranhosos, deixando que as tochas ornamentem os lábios, para não aumentar o risco de derrames cerebrais? Credo! Esta gente não deve andar bem da cabeça. Se esta mensagem passar ainda pode dar cabo da indústria dos lenços de papel. Ranhosos? Conheço alguns portugueses que são uns ranhosos, mas não deve ser para evitar qualquer risco cardiovascular!

Quanto à atividade física intensa durante o sexo, preciso de mais elementos para saber o que é que os autores querem dizer com “intensa”, uma afirmação que vai contra outros estudos que dizem precisamente o contrário. Enfim, o melhor é não dar muito crédito a certas notícias, nem tão pouco enveredar pelo maniqueísmo científico, que, a par do maniqueísmo político e religioso, são fatores perturbadores da nossa condição.

Os autores e os divulgadores destas notícias, que se entretêm a atribuir classificações de bom e de mau, de acordo com os seus humores ou outros interesses, aspiram chegar, um dia, à condição de seres humanos completos, se é que isso existe ou sirva para alguma coisa…

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