DSK

Fernando Ramos

As três letras com que inicio esta crónica são hoje sobejamente conhecidas e significam, para os que possam andar mais distraídos: Dominique Strauss-Kahn, o até há pouco Director do Fundo Monetário Internacional, caído em desgraça pela acusação de tentativa de violação de uma empregada de quartos do hotel onde se encontrava hospedado.

Mas porquê falar do tema? Já muito se escreveu e muito mais se escreverá sobre o assunto por quem, por certo, estará mais habilitado que o autor destas linhas. No entanto, não resisto em dar-vos conta do que mais me impressionou neste caso, particularmente o facto de me encontrar em França quando a notícia foi divulgada, 15 de Maio, e aí ter permanecido até dia 18. Primeiro, porque toda a imprensa e televisões francesas sempre protegeram a imagem de DSK. Dir-se-ia que estavam a proteger um cidadão francês importante que não deveria aparecer algemado em nenhuma fotografia de jornal, nem em nenhuma reportagem televisiva. Rapidamente me explicaram que não, e que essa era uma regra ética da comunicação social francesa para com os cidadãos em geral, não especialmente aplicada a DSK; Segundo, todos os franceses com quem falei aceitaram, sem qualquer estranheza acrescida, que DSK era “mulherengo” e que só poderia ser considerado inocente se tivesse caído numa “armadilha” que toda a gente sabia irresistível para ele, ainda por cima numa forma de “mulata bem escura e jovem”…

Terceiro, metade dos franceses queria acreditar que DSK podia ser uma vítima, nem que fosse de si próprio, e quase ninguém equacionava o facto de a vítima ser a mulher que ele teria tentado violar; Quarto, os franceses tinham perdido o seu candidato favorito a Presidente da República, não porque fosse “mulherengo”, mas porque os americanos o tinham condenado mundialmente e isso era inadmissível para o prestígio de uma França que, mesmo não sendo já a potência imperial de outrora, continua a pensar como se ainda o fosse; Quinto, a mulher de DSK (Anne Sinclair) é famosa (foi durante muito tempo a cara do canal 1 da televisão francesa), rica (não só do milionário salário que auferiu e aufere, mas, sobretudo porque herdou uma grande fortuna) e esteve sempre ao lado do marido nos casos de infidelidade que foram do conhecimento público, numa atitude que vai muito para além da cumplicidade entre casais e que só o exercício do poder parece justificar;

Sexto, mesmo com os debates permanentes nas televisões francesas sobre o tema e com as capas dos jornais a incentivarem a reflexão, não assisti, a um décimo que fosse, do que se passa em Portugal quanto à discussão pública inflamada deste ou de outro caso semelhante ou, mesmo, dos “casos” de um Benfica-Porto em futebol; Sétimo, e a finalizar, vale a pena ou não olhar a Europa do ponto dos franceses? Os portugueses, pelo menos até à minha geração, sempre foram influenciados pela França e pelos seus pensadores, o que, de alguma forma, levava a que Portugal aceitasse, e às vezes a seguisse, as posições francesas em matéria de política europeia. Mas com o eixo Paris-Berlim a redefinir o conceito de solidariedade, temo que os portugueses não se revejam nessa nova definição. Acrescento até que os conceitos tradicionais da República Francesa, liberdade, igualdade e fraternidade, serão os próximos a serem ajustados ao novo pensamento dominante, onde sobressai a máxima: “É a economia, estúpido…”

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