ZAUG e os seus “Bichos”

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Mário Nunes

ZAUG, nome artístico do Dr. José Augusto Coimbra, é mais um caso interessante de criatividade em homens da Medicina, mais um talento na relação do homem com o mundo, um olhar do médico para o meio ambiente, do pensamento e da reflexão humana na vivência do quotidiano. E, também, o testemunho de perspicaz sentido de observação e de racionalidade na universalidade das diferenças e na causalidade dos afectos, dos sentimentos e das capacidades cognitivas, comuns e transviadas.

ZAUG, dotado das afinidades inerentes ao artista que estende os horizontes do espírito para além do material, idealizou um projecto e concretizou na tela um cenário de beleza e de expressividade, cimentado em momentos e realidades que se desdobram e aprisionam na comunhão do profissional de medicina e do criador de arte. Volvendo o seu ego para os “Bichos” de Torga, que lhe proporcionaram a inspiração para os interpretar e traduzir em composições que mostrou ao público, há quatro anos, na Casa da Cultura de Coimbra, ZAUG regressou aos “Bichos”, porém, agora “Bichos” seus que conheceu, que são homens reais, idealizados e transformados pelas semelhanças e convivências, pelos lugares e pelas atitudes, acções e características, que os acompanham no seu dia a dia de seres pensantes e sonhadores.

E, nesta relação entre o humano racional e o animal irracional, ZAUG criou a convergência de sentimentos, de vontades, de desejos, de frustrações, de angústia e de afinidades, que caminham lado a lado, que se fundem na comunhão do real que preenche as suas vidas. E, neste propósito, procurou libertar-se da influência dos Bichos torguianos e criar os seus. Pintou grilos, pombas, galinhas, cucos, libelinhas, caracóis, borboletas, porcos e outros (são 19 telas), que incarnam, associando as vontades, as emoções e as características humanas, em que a capacidade de sonhar e a angústia da morte se distinguem e não se confundem com a sexualidade que abraça, também, a plenitude dos bichos. Persiste uma incarnação e uma força incontroláveis que dominam as naturais vivências dos bichos e que são parte integrante da essência comportamental de humanos.

As telas abraçam composições imbuídas de atractivas tonalidades, simbolizadas em efeitos surpreendentes de movimento e combinações, plenas de oportunos encadeamentos homem/animal, numa grandeza de contrastes e semelhanças que validam uma imaginação fértil e observadora, que conheceu e bem, as figuras do mundo rural que materializam os valores dos seus Bichos. Todas as composições guardam uma leitura distinta mas interligada, que regista princípios, costumes e similitudes de hoje, ontem e de sempre, actualmente mais exacerbados pelos conhecimentos mediáticos que flutuam no quotidiano da sociedade e certificados pelo avanço da investigação científica. Os Bichos de ZAUG são a essência de comportamentos humanos incontroláveis que habitam, perduram e se projectam no tempo e no espaço da humanidade.

A exposição está patente na galeria de arte de A Previdência Portuguesa.

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