Investigadora diz que fabricantes programam vida útil dos seus produtos

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Uma vulgar lâmpada podia durar 100 anos mas são programadas para durar apenas 41 dias, como o procura provar Cosima Dannoritzer num documentário apresentado na Universidade de Aveiro.

E quem diz uma lâmpada, diz uma impressora, uma televisão, máquina de lavar… cujo tempo médio de vida útil é “programado” pelos fabricantes para manter o negócio a rolar, como prova Cosima Dannoritzer, no documentário “Comprar, Tirar, Comprar”.

A este fenómeno, que a autora do documentário admite como uma das “conspirações globais”, embora sublinhando que aqui “muitos de nós têm responsabilidades” pela forma passiva como encaramos o ato de comprar, chama-se obsolescência programada.

Neste filme há um fio condutor que parte de uma banal avaria numa impressora e da investigação feita por um técnico de eletrónica que acaba, já no final do documentário, por descobrir que um chip incutido no aparelho determina a vida útil deste.

Este técnico espanhol conseguiu dar a volta à morte programada da sua impressora através de um software criado por um russo que se deparou com o mesmo problema, tendo o “reset” feito ao tal chip devolvido a vida ao aparelho. E esta pode ser a mensagem mais relevante do documentário.

Pelo meio, toda uma outra rede de acontecimentos que vai das lâmpadas às máquinas de lavar.

Fez-se luz sobre a absolescência programada com a descoberta recente, num quartel de bombeiros dos Estados Unidos da América, de uma vulgaríssima lâmpada que tinha um século de vida.

É a partir daqui que Cosima Dannoritzer parte para uma investigação que a leva a abrir uma janela para os primórdios da obsolescência programada.

E o suporte justificativo é simples: com lâmpadas – mas podia ser qualquer eletrodoméstico de casa – desta qualidade, a durar 100 anos, o negócio não crescia e não havia espaço para a sociedade de consumo que se ergueu desde a revolução industrial, levando a que os fabricantes investissem na deterioração da qualidade dos seus próprios artigos.

É uma conspiração global? É, admite Cosima Dannoritzer, em declarações à agência Lusa, em Aveiro, onde esteve a apresentar o seu premiado documentário, mas adverte: “É uma conspiração em que todos, ou quase todos, participamos”.

“Muito facilmente nos deixamos seduzir pelo ato de comprar, provocando muito lixo, muita poluição… é a grande conspiração da sociedade de consumo, que, em si, também tem um certo tipo de obsolescência programada, porque, a continuar assim, acabaremos todos atafulhados em lixo”, aponta.

Cosima Dannoritzer recorda com insistência que há a obsolescência tecnológica, quando os aparelhos estão pré-programados para falhar, mas “há também a obsolescência psicológica”.

“Muito facilmente nos deixamos convencer a mudar quando as coisas ainda estão bem. É um engano mas é um engano em que participamos enquanto consumidores”, notou.

No início, há cerca de três anos, o que Cosima Dannoritzer queria era “saber se isto(a obsolescência programada) seria algo com fundamento ou mais um mito urbano”, porque não é uma ativista, quer “apenas tornar disponível esta informação” e que “cada um tire a sua conclusão ou procure uma solução”.

Para já, Cosima ficaria contente se criasse consciência deste problema entre as pessoas e levasse o debate o mais longe possível. Para já o debate chegou à Universidade de Aveiro, onde cerca de uma centena de estudantes viram “Comprar, Tirar, Comprar”.

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