“Se gostasse de homens seria tudo muito mais fácil”

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Foto Jot'Alves

Olhando para ela, ninguém diz que Ema Sofia Oliveira Alves já foi Emanuel José de Oliveira Alves, natural da Figueira da Foz. Em abono da verdade, ainda é. Porém, do género masculino “só resta o pénis”. Os seios salientes denunciam a mulher que está “crescer”.

A voz é andrógina, pendendo para o feminino. Os gestos, esses, são femininos, bem como a visão que Ema tem do mundo e, sobretudo, de si própria. Sim, sempre no feminino, porque do antigo massagista da Naval só resta, mesmo, a parte que distingue os homens das mulheres.

Mas por pouco tempo: o processo de mudança de sexo, iniciado em dezembro de 2009, deverá ficar concluído no próximo ano. Um momento pelo qual a mulher que habitava no corpo de homem aguarda há muito tempo. Há quanto, exatamente? “Desde que tenho consciência de mim. Sentia que havia algo errado”, responde, em declarações ao DIÁRIO AS BEIRAS.

Regredindo no tempo, avançamos para a adolescência, que “foi normal”, apesar de gostar de vestir roupa feminina, em privado. “Na altura não conseguia perceber muito bem o que se estava a passar”, revela. O facto de gostar de mulheres não ajudava a esclarecer a crise existencial.

E agora, já gosta de homens? “O que gostamos é uma coisa, o que somos é outra. Sempre gostei de mulheres. Teria sido muito mais fácil se gostasse de homens, pois ter-me-ia apercebido mais rapidamente do que se estava a passar comigo”, esclarece.

Emanuel Alves, 38 anos, enfermeiro no Hospital Distrital da Figueira da Foz, casou, pai de um menor (o filho está a receber apoio psicológico). Entretanto, divorciou-se. Quando iniciou o “longo e doloroso” processo de mudança de género já se encontrava separado da mulher.

A mulher que gosta de pessoas

Continua a gostar de mulheres, insistimos? “A Ema é uma pessoa que gosta de pessoas. É óbvio que nesta fase sou abordada e assediada por homens, tenho tido muitos convites. Mas, por muito que tente, continuo a gostar de mulheres”. Emanuel Alves tomou a decisão de mudar de sexo sem equacionar a possibilidade de mudar de cidade. “Nunca fui pessoa de fugir; muito menos agora”, afiança, acrescentando: “quem se sentir mal com a minha decisão, que mude de cidade”. Só partilhou a decisão com duas pessoas. A família, os restantes amigos e conhecidos foram surpreendidos, quando Emanuel foi para Espanha submeter-se a uma intervenção cirúrgica à face, de onde regressou com cara de mulher.

Também comunicou a decisão às entidades patronais. Da parte do hospital não encontrou obstáculos. De resto, a lei está do seu lado. “Em termos da instituição, tive bastante apoio; em termos pessoais, houve de tudo… Senti um preconceito silencioso”. E os pacientes, como reagiram? “Só tive uma situação desagradável”, garante.

Fora de jogo

Na Naval, ficou fora de jogo e viu o cartão vermelho. Quando regressou de férias, em outubro de 2010, o clube já tinha contratado um novo massagista, afiança. Depois de seis anos de serviço no clube da Figueira da Foz, “alguém da direção” disse-lhe que “estava a manchar o bom nome da Naval”. E critica: “falei com o presidente e com o médico e aquilo que escondi durante 37 anos, poucos dias depois toda a gente ficou a saber…”.

Ema Sofia conta que mudar de sexo “era uma decisão que esteve sempre na cabeça”. É “como um sonho que se vai alimentando”. E também adiando, “por medo da própria reação e da reação da sociedade”. Mas, continua, “chega-se a uma altura em que a angústia é tão grande, que é isso ou morrer”. Daí a necessidade de ter apoio psicológico especializado.

Por breves instantes, fecha os olhos e olha para dentro. O que é vê, quando olha para dentro?, apetece perguntar. Retomando a conversa, revela que “os primeiros dois, três meses foram como se fosse uma guerra, os níveis de angústia aumentam 10 vezes”.

Durante aquele período, “não era carne nem era peixe… Mas tudo é ultrapassado pela vontade de chegar à meta pretendida”. A caminhada continua. Entretanto, repara: “nestes oito meses, aprendi que as pessoas mais rudes são as que aceitam melhor a minha mudança”.

Porém, as mais “sofisticadas”, atira, “são mais preconceituosas, têm medo de serem vistas com a Ema Sofia”. Agora, tudo o que Ema exige é que respeitem a sua decisão e que a tratem como mulher, a mulher que sempre existiu no corpo de homem, erro que a ciência está a tratar de corrigir.

As operações de mudança de sexo vão começar em setembro nos Hospitais da Universidade de Coimbra. A unidade de cirurgia reconstrutiva genito-urinária e sexual é assegurada por 15 especialistas. Vai submeter-se ali à cirurgia?

“Em Portugal só o cirurgião Décio Ferreira tem experiência nessa especialidade, mas já está reformado”, responde Ema Sofia, mostrando-se indecisa. Reconhece, porém, que os HUC deram “um passo importante, porque há muita gente à espera de uma cirurgia”.

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