Atitudes e efeitos

Maria de Sousa, investigadora na área da Imunologia, há pouco premiada com o Prémio Universidade de Coimbra, deu ao jornal académico A Cabra, uma entrevista muito interessante. Perguntada, entre outras coisas, sobre se havia diferenças no Portugal de 1965, quando cursava medicina, e o Instituto inglês onde investigou de 65 a 75, respondeu assim:

“Não havia diferença no que havia para oferecer, o que havia diferença era na atitude para aprender, isso é que era fundamentalmente diferente. Na Faculdade de Medicina da Lisboa os professores sabiam. Sabiam mesmo. Depois só tinham que ir à Biblioteca para perceber que não sabiam tanto como julgavam, ou nos faziam crer. Eu fui para Londres, fui para um laboratório em Mill Hill. Tinha oportunidade de conhecer as pessoas, os maiores nomes nas várias áreas. E lá as pessoas não sabiam… e eram os grandes nomes das áreas. Isso foi a experiência mais importante”.

Tocou num ponto doloroso: na atitude mental de indisponibilidade para o saber, que resulta do autoconvencimento e do desinteresse. É certo que isto se refere a um tempo que já lá vai, mas todos conhecemos, ainda hoje, e em todos os níveis socioculturais, gente autocentrada que não perde uma oportunidade para nos massacrar com os seus conhecimentos, qualidades, valentias, feitos, façanhas, mostrando assim não perceber as limitações das suas ilustres pessoas. Ora, ter noção da nossa própria medida é sinal de sabedoria. E isto não é por falsa modéstia ou humildade cristã, mas pela noção objetiva da infinidade do que não sabemos face ao pouco que sabemos, mesmo que saibamos bastante. E para que serve a atitude de “douta ignorância”, como diria o filósofo Nicolau de Cusa (1401 – 1464)? Para nos abrir o espírito aos novos conhecimentos e às suas imensas possibilidades. A abertura à infinidade do que há para saber é um estímulo ao estudo e à investigação, condição importante para as pessoas e fundamental para o espírito científico.

E ainda na mesma passagem, Maria de Sousa diz o seguinte: “Depois ainda vim para Portugal. Não correu muito bem porque as pessoas não estavam muito interessadas no que eu tinha feito. Havia pessoas, por outro lado, na Europa, que estavam interessadas e fui convidada para ir para Glasgow”. Aqui está: muitos dos nossos melhores cérebros não eram aproveitados porque a estreiteza do meio intelectual e universitário não dava para perceber a importância do que investigavam e as suas possibilidades de aplicação. Era ainda o nosso “horizonte cerrado” em termos políticos, sociais e culturais de antes do 25 de Abril. Felizmente estamos já muito longe disto, em certos aspetos, mas ainda perto, noutros. Se muitos dos bons cérebros, que tiveram que emigrar, tivessem sido aproveitados cá, e ao nível das suas melhores capacidades, não estaríamos agora com défices de produção nem com uma geração “à rasca” e sem grandes saídas. Ou o mal seria menor.

 

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