Sem-abrigo: gestos que valem tanto como um agasalho

Foto de Gonçalo Manuel Martins

22H45. Termómetros a bater nos seis graus centígrados. Sob o viaduto da Casa do Sal, longe das luzes que dão vida à cidade, dois caixotes improvisam a casa de um sem-abrigo. Quando a equipa da Associação Integrar chega, assusta-se com as luzes da carrinha. É romeno, idade a rondar os 50 anos. O diálogo é difícil. Paul (vamos chamar-lhe assim) não domina a língua portuguesa. Ainda assim, o sorriso que lança ganha a dimensão de um sonho quando Inês Simões, técnica da associação lhe diz que no dia seguinte, se quiser, pode ir para o Centro de Acolhimento.

Depois de um café quente, os voluntários perguntam-lhe se quer um cobertor. Recusa a oferta. Numa noite de temperaturas baixas, alguém lhe toca na mão. “Não tem frio?”. O romeno encolhe os ombros, leva a mão ao peito e diz: “frio, aqui”. Às vezes, quando falha o chão, há palavras que valem quase tanto como um agasalho.

Para quem não tem abrigo, os minutos correm fora do relógio. Mas se há uma rotina que é cumprida quase diariamente é a de estar, à hora marcada, perto do local por onde passam os giros de rua. No Terreiro da Erva, são 11 as pessoas que se abeiram da carrinha. E aqui, na maior parte dos casos, é a droga a culpada pela vida errante em que mergulharam.

João tem 37 anos e consome há 20. À primeira vista é rude e ameaça riscar o carro se não lhe derem um euro. Mas quando fala dos dois filhos, o rosto transfigura-se. O gorro quase lhe esconde os grandes olhos verdes e o sobrolho franzido. Mas não encobre a mágoa de ter desiludido quem ainda acreditou nele. Foi por isso que, há três meses voltou para as ruas. ”Vou conseguir sair desta vida. É uma doença…”, diz, antes de voltar as costas e partir.

Também ali, no Terreiro, Manuel Antunes, 48 anos, exorciza fantasmas enquanto desfia memórias. Dorme nas ruas há três anos, pelos mesmos motivos e a família – diz – “deu-lhe com os pés”.

O lar que encontrou dá-lhe liberdade e, afirma, sem hesitações, que sim, é feliz. A família, agora, é aquela que foi fazendo nas ruas.

As equipas e os técnicos, que têm estratégias e projetos de vida para oferecer, “sentem alguma dificuldade em fazê-los cumprir porque os sem-abrigo também ganham gosto pela liberdade”. Inês Simões, que está nas equipas de rua há mais de dois anos, diz que muitos acabam nas ruas devido à toxicodependência, ao desemprego ou a desavenças familiares.

Nos últimos tempos, a associação tem recebido pedidos de ajuda diretos, de pessoas que, de um momento para o outro, se confrontaram com dificuldades económicas. Esses não aparecem nas ruas, mas a pobreza, a vergonha e, tantas vezes, a solidão, são igualmente preocupantes.

A próxima paragem é na Avenida Fernão de Magalhães. Álvaro chega alegre. Já bebeu demais. “Vinho, cerveja e bagaço”, diz, enquanto tenta equilibrar-se nas pernas trôpegas. Já é conhecido dos voluntários que não lhe levam a mal um ou outro atrevimento. “Do que eu preciso é de uma namorada para me aquecer”. À falta de melhor, agarra-se ao cobertor e agradece.

A assistir a tudo isto, está Maria, prostituta há uma década. Depois de ter ficado sem marido viu-se a braços com quatro filhas para criar. “Nunca lhes faltou nada”, garante a mulher de 49 anos.

É hora de partir. Para trás, escondem-se tantos rostos que deambulam sobre o mesmo chão que lhes serve de cama. Eles existem, embora muitos prefiram continuar a ignorá-los.

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