Sinos de Coimbra (ainda) se ouvem!!!

A cidade é acordada e alertada “sonoramente” pelos mais diferentes sons: buzina de urgência das ambulâncias; sirene estridente dos bombeiros; buzina de impaciência do automobilista; som roufenho de passagem dos autocarros; sonoridade agradável da música; som denunciante ou discursivo do megafone de manifestações, comícios e publicidade; “sinfonia” enervante dos automóveis na fila que não anda; apito de intimidação e ordem do agente policial; “coro” de crianças em iniciativas de rua; ribombar de respeito do trovão; som sibilante e inconfundível do amola-tesouras e conserta alguidares e chapéus; outrora, o silvo do comboio da Lousã e, ainda, dos comboios entre as estações A e B; ladrar furioso ou de solidão e abandono do cão; som sibilante do vento; som metálico do sino da igreja; outros sons suaves, agudos e pianíssimos.

De todos escolhemos o dos sinos desta Coimbra adornada de campanários nas igrejas e capelas, alguns, ainda, comunicadores dos fiéis, que anunciam e convocam para as cerimónias religiosas, para a oração, para informar tristezas e alegrias, para indicar as horas.

Registámos os badalares sonoros em São José, Graça, Sé Nova, Santo António dos Olivais, Areeiro, Santa Clara, São Bartolomeu e noutro “templo” centenário (a Torre da Universidade) com outro objectivo. Porém, há setenta/oitenta anos e como se lê em livros de memórias e história da urbe, a sonoridade sineira invadia toda a cidade e alguns estimularam jocosa e humorística poesia com pauta “musical” dos conventos da margem esquerda e direita, quadras que pertencem ao cancioneiro popular de Coimbra.

E, se Coimbra no testemunho escrito de Virgílio Correia “era a cidade das grades”, devemos acrescentar que “Coimbra foi (é) a cidade dos sinos”, pois no nosso entendimento oferece, ainda, elevada quantidade que adorna os campanários das igrejas e capelas, mostrando a arte que brilha das “atalaias de Deus”.

Neste conjunto de sinos famosos, incluindo os da Universidade, sublinhamos aqueles que pertenceram à igreja de São João de Almedina e mandados fundir em Santa Clara ao artesão/artista Fernando de Caminha, sinos que provam que a cidade possuía, também, oficinas de fabrico deste equipamento sonoro e artístico, que a par dos sineiros de Cantanhede, os Sorrilhas, fundiram e instalaram sinos em muitas torres da região e do país. E, para identificar o autor podemos ler gravadas, geralmente, no bordo, ao lado de inscrições latinas e de medalhões de santos, o nome e a data desse fabricante. Por exemplo, os sinos da igreja de São João de Almedina, conf. Paulino Mota Tavares, in, Mundo da Arte, 1982, dão essa indicação e ornamentam, actualmente, o campanário da igreja de São José.

Sino, cuja palavra deriva de “signum”, significando apelo e chamamento, corresponde à réplica cristã da campainha. Recua este processo de comunicação ao século V. Desde essa época associado à liturgia constitui uma autêntica obra de arte e de técnica. Esta fundamenta-se em princípios de rigor geométrico em que o diâmetro do cérebro tem que igualar o raio da medida do bordo, e assim fornece uma nota musical com a diferença de uma oitava. Logo, o som é proporcional ao diâmetro e à altura e depende, também, da fusão da matéria-prima que o forma, onde abundam o estanho e o cobre, da mistura exacta e do arrefecimento.

Sinos de Coimbra uma herança fabulosa que valoriza, sobremaneira, a cidade e o seu património.

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