Querido Estado

Nos últimos tempos todos dizem mal de ti, parece que está na moda. Poucos te chamam querido. Pelo contrário, és visto como o mal amado, o indolente que vive à nossa custa sem fazer nada por isso. Como sendo a causa de todas as desgraças, de todas as crises deste mundo.

Que te fechem já, hoje se possível, é o grito com que somos invadidos.

Mas depois onde vamos ao hospital? Será que fazem seguros para pessoas com a minha idade, para quem já tenha tido uma doença, ou seja apenas filho de quem teve? E estudar, será que fica apenas para quem pode e os outros que se arranjem? E as pessoas mais velhas e as mais desfavorecidas, que não tiveram as oportunidades que hoje tantos têm, vão ficar por aí ao abandono?

Querido Estado, eu sei que nem sempre tudo te corre pelo melhor, que precisamos de garantir a tua existência à medida dos nossos recursos e não para além deles. Exageraste às vezes nos teus gastos? Foste demasiado ambicioso nos teus projectos? Demasiado generoso na resposta a tantos pedidos, tantas reivindicações que sempre (mesmo ainda hoje) te vemos serem dirigidas? É possível que sim.

Mas estranho, estranho muito que aqueles que agora te vilipendiam por seres irracional, te condenam por não seres mais exigente na dieta, tenham ficado calados ou mesmo protestado, e de forma tão ruidosa, quando foi preciso fechar urgências de fraca qualidade, escolas onde não havia alunos ou até repartições de finanças com muito poucos utentes.

Também sei que tu não és mais gordo nem monstruoso que os teus primos finlandeses, suecos, dinamarqueses, ingleses, holandeses, belgas, franceses, austríacos, italianos, húngaros, gregos, pelo contrário. Não esqueço, é certo, alguns deles são mais ricos.

Querido Estado, eu que estudei numa Universidade pública de prestígio, eu que frequento os teus hospitais, circulo nas tuas estradas, beneficio da tua segurança, eu chamo-te querido ainda hoje, podes crer. Não sou daquelas que se servem de ti e ao mesmo tempo te cortam na casaca. E acredita que não é apenas uma palavra de conforto a um amigo em situação difícil.

Trabalho com realismo pela tua sustentabilidade, todos os dias, tentando eliminar aquilo que não é necessário que tu faças para manter o que é indispensável que continues a assegurar.

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