O arrependimento de Bibi

Acordei a ouvir notícias. Bibi está arrependido do que fez. E o que fez? Mentiu. É muito feio mentir. Isso eu sei desde pequenino. A acreditar no que agora afirma, e não acreditando no que disse antes, Bibi teve pena dos rapazes da Casa Pia e lá foi contar uma catrefada de mentiras sobre um vasto conjunto de personalidades que até agora eram – dizia ele – criminosas, mas que afinal – diz agora – são impolutas. Verdade? Mentira? Não sei. Sei que o homem está arrependido.

Diz o povo que se o arrependimento matasse… e parece mesmo que de arrependidos e bem intencionados está o inferno cheio. Mas seja, também diz o povo que mais vale tarde do que nunca. E vai pus-me a meditar na sabedoria popular, movido por tão comovente acto de contrição. E assim, talvez seja de crer que há já por aí muitos milhares de eleitores arrependidos.

Uns arrependidos por terem votado naquele partido do governo que lá na Administração Interna conseguiu produzir uns cartões de cidadão que impediram muitos milhares de portugueses do exercício mais elementar da cidadania – o voto! Trapalhada atrás de trapalhada, roubo a vencimentos e a rendimentos atrás de roubo, destruição de direitos e de serviços públicos uns a seguir a outros e só nos faltava um cartão que atirou milhares de pessoas para secções de voto diferentes, para outra freguesias ou mesmo para casa, sem votar, tal a confusão! Arrependidos estarão já, como sempre, os que não tendo ido votar, viram depois de contados os votos que o seu em falta afinal podia somar-se a outros.

Outros há arrependidos por terem juntado o seu voto ao monte onde em consciência contrita já reflectiram que lá não deveriam estar. Outros ainda são por enquanto pré-arrependidos, não tardará muito que, qual gesto de Bibi, declararem solenemente e em público, nas feiras, nos transportes, nos mercados, nas paragens de autocarro que os políticos são todos iguais, esquecendo-se que se os há iguais é por igual ser o tratamento indiferente que lhes votam.

Mas, suprema esperança, pelo país fora, qual pandemia, mais pandémica que a da gripe A, em formato de mancha de óleo que se espalha, brotará o movimento bibiano. Então, à porta dos confessionários formar-se-ão as bichas que se não viram junto às mesinhas do voto. E se já temos um Portugal dos Pequeninos, à medida de alguns, poderemos ter o Portugal dos Arrependidos.

Eu cá por mim acredito neste povo. E não duvidando de arrependimentos súbitos, prefiro reproduzir as sapientíssimas palavras que com convicção – agora não se escreve assim, mas vale o mesmo de sempre, pelo menos para mim – Jerónimo de Sousa proferiu: “procuramos compreender o povo, não estamos zangados com ele. É este o povo que temos, é com este povo que lutamos, é por este povo que continuaremos a lutar.” Sem qualquer arrependimento!

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