João Botelho: “o cinema existe para inquietar”

Foto de Gonçalo Manuel Martins

O livro é de Pessoa. O filme de João Botelho. O desassossego é comum aos dois criadores e tem conquistado espetadores em todo o país. Botelho apresenta “Filme do Desassossego” ao jeito do cinema ambulante.

P – É a extraordinária transformação técnica verificada desde que começou no cinema que lhe permite estar a fazer esta apresentação do “Filme do Desassossego”?

R – O cinema tornou-se uma coisa mais democrática, mais à mão, mas ao mesmo tempo mais difícil. Parece fácil, mas não é. O cinema é uma invenção tecnológica e, de repente, há os artistas que pegam nela. Tudo começou com uma máquina de moedas, onde se viam umas imagens em movimento, até que chegaram os artistas e começaram a inventar uma linguagem, uma gramática. Quando passou do mudo para o sonoro, disse-se que o cinema acabava, porque era uma expressão de faces e não resistiria ao som. Mas, o facto, é que a palavra assumiu entretanto tanta importância como a imagem. A seguir, aconteceu a cor e lembro-me de Dreyer que dizia que o cinema morreu porque a cor tornaria o cinema realista e o cinema não lhe interessava como realidade. Mas houve artistas que utilizaram a cor como pintura…

P – Até que acontece o digital?

R – Deixámos o 35 mm e passámos para o digital, que é completamente diferente, mas que é possível aproveitar e continuar a fazer expressão de sentimentos, agora com números em vez de ser com química.

P – E este seu filme é a expressão disso mesmo?

R – É. Mas utilizar o digital dá trabalho. Há pormenores técnicos, relativamente à luz por exemplo, a que é necessário dar muita atenção. Há a ideia que é muito mais fácil, mas não é. Mas é possível. E é possível trabalhá-lo e fazer obras de arte a partir de um meio completamente diferente, que assenta em números ao invés da química, mas tem lá os sentimentos e a luz e a alma.

P – Está lá o cinema. E torna possível esta sua reinvenção do cinema ambulante?

R – Está lá o cinema. Todo. E sim permite-me esta coisa de que eu me lembro, de uns senhores que andavam pelas aldeias com uma carrinha e umas películas a desfazerem-se e um lençol onde prejetavam os filmes, criando acontecimentos notáveis e emocionais. Lembro-me de ver o “Marcelino pão e vinho”, o Joselito, a Marisol, a Judy Garland com o Spencer Tracy.

P – Agora “trocou” as aldeias pelos teatros e cineteatros?

R – A ideia é essa. Porque agora há uns cineteatros onde se esqueceram do cinema. Gastaram-se milhões de euros a recuperar salas e a fazer outras de raiz e esqueceram-se de gastar um por cento a comprar para lá uma máquina de projetar. Há todo o tipo de espetáculos, mas esqueceram-se do cinema. Eu e o meu produtor decidimos comprar uma máquina de projetar, que é a única coisa cara do sistema [custa 45 mil euros]. Mas como vou atingir 20 mil espetadores no fim-de-semana de 15 de janeiro, já me permitiu pagar a máquina. Porque, no fundo, a minha grande preocupação é não defraudar as pessoas que vão ao cinema, portanto temos de criar as melhores condições de imagem e som. E isso é possível com um sistema relativamente ambulante – um blue-ray, uma play station e uma máquina de projetar –, ocupando salas como o São Carlos e o S. João, no Porto, em ecrãs enormes, com uma grande qualidade de imagem e som.

P – E, depois, há este filme em particular?

R – Se fosse outro filme, eu não tinha tanto empenho em mostrá-lo desta maneira, mas trata-se de Pessoa, do “Livro do Desassossego”, um texto sagrado da literatura portuguesa.

P – Este foi o seu grande desafio?

R – O meu grande desafio foi pegar num texto que toda a gente dizia que era impossível fazer. Mas é possível. Pode fazer-se um filme só com um poema, só com uma árvore, pode fazer-se um filme como se quiser. A questão é que o cinema hoje foi transformado num entretenimento infanto-juvenil. E não é. Eu lembro-me, nos anos 60, aqui em Coimbra, de ver filmes, como um de Andy Wharol, que apresentava uma pessoa a dormir durante quatro horas… e era cinema. Ou o Empire State Building a mudar de luz durante 12 horas… e era cinema. O cinema são muitas coisas diferentes. E esse tipo de cinema – que se foi perdendo em nome de uma pata esmagadora que decidiu que o cinema é uma coisa de entretenimento para crianças – é o meu cinema. Esse é o cinema francês que já só se vê na quinzena do cinema francês, o cinema italiano que só se vê na semana do cinema italiano, o cinema brasileiro que só se vê no festival de cinema brasileiro. E esse cinema foi subjugado por um império, que faz filmes tão caros que precisa das salas todas para recuperar o dinheiro que investe.

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