De vento em popa

No decurso de uma consulta, uma senhora manifestou a sua satisfação pelo desaparecimento das lesões cutâneas com um velho manipulado que ainda se faz nas farmácias. – É mesmo muito bom, sempre que necessito ponho a pomada e no dia seguinte desaparece tudo.- Um remédio da santa “milagrança”, disse meio a sorrir. – Até fez lembrar o meu falecido pai, que Deus tem, que, há mais de meio século, andava a tratar-se com pomadas prescritas pelo médico, mas sem qualquer resultado, até que um dia disse: – Amanhã vou à feira comprar banha da cobra. E assim foi, comprou, aplicou-a e nunca mais teve problemas da pele – Quer dizer que também podíamos ir para as feiras vender esta e fazer algum? – Claro, desde que fossemos para sítios onde não nos conheçam. – Pois é, dizem que santos ao pé da porta não fazem milagres, mas também não acredito que longe da porta também sejam capazes de os fazer. Deixou de sorrir, e questionou-me se eu não acreditava em milagres de santos. Limitei-me a sorrir como resposta, e, naturalmente, não foi muito complicado desviar a conversa para coisas mais essenciais e práticas. Foi o que eu fiz, sem deixar de pensar nesta pequena conversa que começou a matraquear no meu cérebro.

Considero que as duas principais e marcantes características dos seres humanos são a crendice e a contradição. A crença é uma força poderosa que está tanto na base da construção de movimentos religiosos como de muitos negócios que abundam por aí, entre os quais os relacionados com a saúde, porque esta, sendo um bem precioso, transforma tudo aquilo que vier ao seu encontro numa benção, não propriamente de Deus, porque não estou a vê-Lo metido nestes negócios, mas como forma de alimentar e enriquecer os que têm arte e engenho em explorar este campo. E os seres humanos caiem como patos. Os tempos mudam, mas os vendedores da banha da cobra adaptam-se às novas realidades, utilizando os conceitos, a força, a credibilidade e a importância da ciência para os seus fins. Deste modo, a expressão “cientificamente comprovado” constitui a frase que antecede os discursos de muitos mixordeiros quando propagandeiam os seus produtos, utilizando caras larocas e corpos sedutores, publicitando-os em jornais, revistas, rádio, televisão, farmácias e em muito outros locais.

Confronto-me cada vez mais com casos destes, fenómeno transversal a todos os grupos, atingindo mesmo os que à partida deveriam ter mais sentido crítico, porque, sendo culturalmente mais ricos, deveriam criticar e questionar estes aspetos, mas não, por vezes até são os mais acérrimos defensores destas práticas. Ao olhar para a comunicação social, verifico um fenómeno muito preocupante: a invasão da ciência (ciência como sinónimo da verdade ou da sua busca), por parte de entidades que querem continuar as suas práticas de exploração da crendice humana, adaptando-se às novas realidades. Ao misturar o princípio da verdade subjacente à ciência com interesses económicos duvidosos, e pretendendo contribuir para a saúde assim como ajudar a “poupar” nos custos, estes movimentos exploram o mais velho nicho de mercado do mundo. A pulseira do equilíbrio que, naturalmente, está a ser posta em causa, obrigando a empresa produtora ou distribuidora, nalguns países, a ter de pagar indemnizações pelo “engano” das suas propriedades terapêuticas, e que está à vista de quem a quer comprar nalgumas farmácias, onde se vende de tudo, até medicamentos, constitui, a meu ver, uma violação ética da sua finalidade ou dos seus agentes, que se consideram como parceiros imprescindíveis na saúde da comunidade. Um exemplo paradigmático a que se associa o negócio em pirâmide de uma bebida à base do mangostão, “rico em antioxidantes e bom para a saúde”, e que tem dado lucros elevados aos que se envolvem nesta “bolha” a relembrar outras. Mas poderia exemplificar com mais casos, como aconteceu na semana passada ao ler um jornal médico. Fiquei surpreendido com a publicidade a medicamentos homeopáticos, verdadeiros frascos de concentrado de placebo. Não sei quanto custam, mas partilham algo em comum, não têm efeitos secundários. Pois não, o único efeito secundário é o desvio do dinheiro para o bolso dos promotores.

Criar bolhas, vender placebos aos pacotes, usar a área da ciência para mascarar velhas práticas, mais do que discutíveis, aproveitar espaços de responsabilidade na saúde para a sua venda ou usar a comunicação social para estes fins, constituem variantes modernas de como abusar da crendice humana.

Estamos perante negócios que vão de vento em popa e, em tempo de crise, vão proliferar como nunca.

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