A última campanha

O acto eleitoral que ontem se realizou não discutiu suficientemente os problemas do país. Sabemos. Circunscreveu-se demasiado a algumas irregularidades que denunciam falhas dos candidatos do centrão, e não discutiu as ideias sociais e económicas que nos martirizam. São as que se proclamam sem se justificar a razão por que devemos ser tão infelizes, e só para que uns banqueiros não sejam penalizados por anomalias perversas que, até, cometeram deliberadamente.

Agora, “parece”, ninguém se comporta com um jovem idealista, precocemente desaparecido, descrito por Hipólito Raposo em 1913 por que “Foi um tipo único de estudante político que surgiu em Coimbra por este tempo; nunca se pareceu em nada com os boémios de fama, revelara-se através da sua vida e no actual meio académico, uma criatura singular. Teorias sociais, ninguém conheceu e seguiu tantas como ele. Duravam-lhe sempre pouco, só enquanto o livro que lhas inspirara não passava, extremamente barateado, às mãos de outro…”

Eram outros tempos e outros tempos se seguiram em que o sonho comandou a vida, mas nunca como agora os governantes transformaram os sonhos e as realidades em pesadelos de que nunca acordamos. Sabemos.

Desacreditados do sonho, discutimos só a miséria que antecipamos em cada medida do governo. Ninguém parece aceitar que tanta crueldade possa sair de um governante que até diz defender o estado social. Tentamos esquecer que tudo é mesmo difícil para os pobres e remediados. Entretanto, os governantes que gerem o emprego e o desemprego, deixando-o bem alto, mostravam até um carro novo, acabado de comprar, em todo o seu luxo esplendoroso. O primeiro-ministro fazia-se de novas quanto às más novas do exterior e a isso se resumiam os seus discursos. Contudo, quem andou na campanha conheceu situações como uma idosa obrigada a trabalhar até as forças lhe faltarem por a reforma ser escassa.

Notou a desesperança quase muda de um presidente de junta, manietado por uma vereação abúlica, que não lhe permite realizar os planos de desenvolvimento da sua aldeia. Ouviu industriais que confessavam ter enormes dificuldades em pagar os salários dos seus trabalhadores, e só por terem demasiado dinheiro perdido nas mãos dos devedores. Outros queixavam-se de não ter clientes por a crise financeira ter retirado a estes, através de impostos e/ou pelo desemprego, o rendimento necessário. Outros arrependiam-se de ter ficado a trabalhar num país onde se cortam reformas no fim das vidas de trabalho. Todos olhavam o futuro com inquietude. Questionavam, sem o conseguir explicar, porque o presente era tão difícil. Começaram felizmente a entender as razões políticas que geram esta miséria crescente e começaram de novo a querer um mundo novo a sério. Isso, na verdade, dá-nos toda a esperança se formos firmes na procura das razões da degradação da nossa vida económica e social. Mas, só o conseguiremos se actuarmos em conformidade com a nossa obrigação de cidadãos.

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