Mar

O título da minha crónica pode ser lido como “lá vem este falar do óbvio…”. Nada demais. Aliás, em ambientes mais informais e quando é necessário uma apresentação da minha pessoa, utilizo, por vezes, a fórmula “Fernando Ramos – generalista em banalidades”.

Também hoje me apeteceu escrever sobre o mar e, imagine-se, apenas da costa do distrito de Coimbra. Assumindo que o produto turístico “sol e mar” ainda vende, por período mais curto é verdade, mas com um rendimento que não é de desperdiçar, que o digam as praias da Figueira da Foz, Tocha e Mira, depreende-se que mesmo um banalista como eu não daria um nome a uma crónica que se poderia esgotar num parágrafo.

Claro que não se pode descurar a importância da pesca, apesar de alguma sazonalidade relativa à arte de xávega, pelo que a indispensabilidade do porto de pesca da Figueira merece destaque permanente, a que se deve sempre acrescentar a não menos relevante actividade do porto comercial. Se a “seca do bacalhau” já quase se perdeu, mesmo para memória futura, o mesmo, felizmente, não aconteceu com o sal que, apesar da diminuição de produção, mantém boas perspectivas de actividade, quer na diversificação de produtos, quer como rota turística (já agora um conselho para um próximo fim-de-semana na Figueira da Foz: faça o percurso pedestre, visite o museu e complemente com um passeio de barco, tudo com o sal como tema principal. Vai ver que merece a pena, que encontra, se necessário fosse, justificação para o seu SALário, que apetite é coisa que cresce exponencialmente com o decorrer de cada minuto e que a gastronomia local está mais que apta para o saciar…).

Mas a zona do salgado na Figueira da Foz tem dado lugar à aquacultura, onde o robalo e a dourada sobressaem, apesar de coexistirem explorações com grande diversidade de eficiência, a que se podem acrescer as multanacionais Stolt Sea Farm, na Praia da Tocha, e Acuinova, na Praia de Mira, demonstrando, se necessário fosse, as condições óptimas da nossa costa para a piscicultura. Importa referir que a produção de pregado (rodovalho) em Mira, quando atingir a velocidade de cruzeiro, corresponderá a metade do que se produz em todo o espaço Europeu.

Face a este resumo de actividade, torna-se fácil concluir que a Câmara Municipal da Figueira da Foz, e especialmente a ideia que o seu presidente baptizou de “Aldeia do Mar” não podia ser mais acertada.

O que já existe é muito e o que pode ser desenvolvido, ainda mais. E é aqui que entra a Universidade que, também ela (leia-se Universidade de Coimbra) já se encontra no terreno, seja com investigadores das Faculdades de Ciências e Tecnologia, maioritariamente, de Farmácia ou de Letras, só para mencionar aqueles com quem já lá me cruzei.

Espera-se, por isso, que o desafio lançado à Universidade de Coimbra pelo Senhor Presidente da Câmara da Figueira da Foz, mais do que ser aceite, seja coordenado e alcance os objectivos propostos. Só assim seremos capazes de multiplicar a riqueza de que o país tanto necessita e, certamente, só assim se utilizará eficaz e eficientemente os fundos europeus do Centro, eventualmente disponíveis para este MAR que, nas palavras de Pessoa, se pode traduzir como, adaptando de memória aquela que penso ser a última quadra do seu poema. A vontade de passar além deste “Bojador” existe, mesmo que se tenha que tolerar alguma “dor”, por forma a evitar os perigos e abismos visíveis e, alguns, invisíveis, porque só assim poderemos aproveitar esse MAR do nosso contentamento, onde um céu sem nuvens se vem espelhar…

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