Cartas ao Pai Natal

O Natal é um tempo de mistério. Sempre me intrigou o conteúdo das cartas que as crianças escrevem ao Pai Natal.

“Querido Pai Natal, hesitei muito antes de te escrever. Sei que tens muitas cartas de outros meninos e pouco tempo para as leres e ainda tens de ir às compras, com os “shoppings” a abarrotar de curiosos. Mas eu não quero pedir nada para mim. O que te venho pedir é que sejas justo e compreensivo com os que sofrem. Sou criança, mas vejo na televisão que há muita crise e muita gente a sofrer. Ontem, vi um senhor, coitado!, a falar das imensas dificuldades que está a sentir.

Dizia que era impossível aumentar o salário mínimo para os 500 euros. Mais 25 euros por mês sempre dá 83 cêntimos por dia, que eu sei fazer contas, e dava para um cafezito. Mas coitado o senhor que é presidente da CIP está a sofrer com a crise e quase na pobreza. Pai Natal, se puderes ajuda os que sofrem. Já deitaste a mão, com a ajuda de alguns partidos, àqueles desgraçados dos accionistas das grandes empresas que vão receber dividendos antecipadamente, livrando-se de tantos impostos.

Mas por favor, lembra-te dos banqueiros e dos impostos que pagam. Desgraçados. O que seria deles se pagassem impostos como o meu tio Zé que tem uma mercearia cá no bairro? E não te esqueças dos homenzinhos que investem na bolsa, põem o dinheirito suado das suas economias naquela espécie de jogo do monopólio. O que seria deles se tivessem de pagar impostos como os outros? E neste Natal, Pai do dito, protege os “offshores”! Não te esqueças de quem mais precisa… Pronto, já está e não custou tanto assim. Pedi, mas não para mim, só pelos mais necessitados.”

Ou talvez assim: “Querido Pai Natal, neste ano não te peço uma bola como a que me deste no ano passado. Se pudesses dar um emprego ao meu pai… Lá em casa pagamos 350 euros de renda. O meu pai diz que baixou o abono de família e o que a minha mãe ganha a limpar a casa das senhoras é tão pouco! A minha mãe chora, às escondidas. Não sabe onde ir buscar dinheiro para o gás, a luz e a água. E os remédios da avó são tão caros. E as roupas?

A minha mãe diz que temos de comer. Sou uma criança e preciso de comer e de outras coisas, não achas?”

Pensava eu sobre o tipo de cartas que se escrevem ao Pai Natal quando encontrei uma mulher com dois miúdos pela mão. No final da conversa, que bem podia ser a da mãe da segunda carta, olhei bem nos olhos do miúdo de 7 anos.

Não sei se o disse, se o ouvi, ou sonhei: “Vou dizer-te um segredo: o Pai Natal já não existe! Afinal era um grande vigarista! Fez marcha-atrás com o trenó e pôs-se a milhas com as renas.”

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