Miguéis e Saramago

José Rodrigues Miguéis / José Saramago – correspondência 1959 – 1971”, da Caminho, organização e notas de José Albino Pereira, é um livro constituído pelas cartas trocadas entre estes dois homens, um, Miguéis, escritor então de primeira linha da literatura portuguesa, e o outro, Saramago, ao tempo diretor literário da Estúdios Cor, embora, por aquilo que ele vai dizendo, e se adivinha, um topa-a-tudo da editora.

Cartas e mais cartas sobre se se publica esta ou aquela obra, se avança agora esta edição ou outra, se vamos publicar já ou mais logo, e quantos exemplares de tiragem, e que tipo de letra, e como vai ser a capa, provas que vão por cima do Atlântico, provas que voltam da América com emendas, e os custos dos portes aéreos, que escaldam, o medo de uma apreensão de livro, que pode deitar tudo a perder, e as mesadas que se atrasam, os magros cheques dos direitos de autor que nunca chegam a horas, por atrasos no correio, dificuldades de tesouraria, afazeres que impediam ao funcionário Saramago as contas a horas, as listas das vendas conferidas mês a mês, por entre palavras de ânimo, outras de desânimo, notícias, referências a amigos comuns, etc. Enfim, por via epistolar, duas vidas difíceis: de um autor – Rodrigues Miguéis, exilado e isolado, não só geograficamente mas, a partir de certa altura, também pelo “silencio”dos antigos “compagnons de route”, e do seu interlocutor editorial, Saramago, zelador, progressivamente próximo, pelo espírito, e cada vez mais “querido amigo” e quase confidente.

De modo que é um livro objetivamente sem grande interesse e, todavia, muito interessante. Pelo menos para mim. Porque, na sua aparente monotonia, as cartas são a imagem reveladora da pessoa sensível, crítica, amargurada e até algo nevrótica que José Rodrigues Miguéis era, longe, sem notícias, sem amigos, sem grande saúde mas, apesar de tudo, cheio de projetos e trabalhando sempre. E de um José Saramago na situação de admirador do escritor famoso, mas na função de conselheiro, de apoiante psicológico, de quase protetor, revelando um “coração” que muitos se negam a reconhecer nele, mas que ele tinha. E, curioso, já próximo daquele estilo corrido, envolvente, que não deixa nada para trás (só algum subentendido, alguma piada) e lá vai, palavra a palavra, frase a frase, misturando assuntos de serviço com lamentações pela vida trabalhosa e cansativa, pelo país cinzento, pela pobreza editorial, apesar de algumas euforias, pelo ordenado “de miséria”, e até com algumas discretas confidências sobre as suas andanças e desandanças amorosas, que tanta perturbação lhe causaram, a certa altura, na cabeça e no serviço.

Enfim, pelo que se diz e se dá a entender é uma boa imagem do Portugal envelhecido dos finais do Estado Novo. É também interessante para vermos as voltas que a vida dá. Apanhar um Saramago a chegar aos quarenta, funcionário atarefado de edições, enviando a Miguéis os seus tímidos versos das horas vagas, e depois as crónicas d’ A Capital, para lhe ouvir a opinião. E da outra banda um escritor consagrado, já com obra feita, mais velho vinte anos, e todavia frágil, oscilando entre a insegurança e a noção do seu valor, sofrendo do síndroma de todos os isolados, longe de Portugal, moído de saudades e projetando viagens, que ia adiando, porque eram caras, não havia saúde, etc. Passados trinta, quarenta anos é curioso verificar como as coisas se inverteram. O então funcionário das escritas e aprendiz de escritor transformado num autor de primeira grandeza, laureado ao mais alto nível, homenageado por todo o lado, e o outro, então muito lido e apreciado, hoje esquecido. Muito injustamente, diga-se. Como são estas coisas!

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