Fome cresce a olhos vistos em Coimbra

Foto de Arquivo - Carlos Jorge Monteiro

No último ano, o número de famílias apoiadas pelo Centro de Acolhimento João Paulo II passou de 700 para cerca de 800 –, o que, multiplicando por três (média do agregado familiar), representa 2.400 pessoas. Mais grave do que a evolução dos pedidos de ajuda, são os casos de “carência alimentar acentuada”, refere Armando Garcia, coordenador do centro.
A prova está à vista: em 2009 houve um acréscimo de 61 pedidos de ajuda na área alimentar. Este ano, o Centro de Acolhimento João Paulo II já recebeu 131 pedidos de apoio de famílias.

O cenário repete-se noutras instituições: todos os dias aparecem novos pobres a pedir comida ao Banco Alimentar Contra a Fome. Em Coimbra, de acordo com os últimos dados disponíveis, em 2009 foram assistidas mais 500 pessoas do que no ano transato.

Há pessoas a passar fome. São “os novos pobres: empregados, instruídos, socialmente integrados, mas, ainda assim, vítimas envergonhadas da pobreza e até da fome”, adiantou ao DIÁRIO AS BEIRAS Arminda Lemos, presidente da Cozinha Económica, que diariamente, serve cerca de 500 refeições a mais de 350 utentes.

Desperdício alimentar

Não deixa de ser um paradoxo: no mesmo país onde se passa fome, desperdiçam-se toneladas de alimentos. Carne, fruta, pão e comida confecionada são alguns dos produtos que são deitados no lixo todos os dias, depois de os supermercados fecharem. Na Baixa da cidade (ver foto) o cenário é, infelizmente, muito comum. Ao final do dia, são muitos os que procuram alimentos que outros deitam fora.

“Infelizmente, temos conhecimento de alguns casos esporádicos, nos grandes centros urbanos, em que os contentores de lixo das lojas, são procurados por pessoas em necessidade”, disse fonte oficial do grupo Jerónimo Martins, proprietária das marcas Pingo Doce, Feira Nova e Recheio (líder em cash& carry).

De modo a evitar que os restos sejam ser aproveitados por pessoas, em situação de pobreza extrema, que procuram comida nos contentores, a cadeia de distribuição alimentar procura “aproximar a hora de colocação dos contentores na via pública da hora prevista para a sua recolha”. Até porque – adianta a mesma fonte –, os alimentos colocados nos contentores não são passíveis de serem consumidos em condições de segurança alimentar”.

De resto, o grupo Jerónimo Martins combate “ativamente” o desperdício, através melhoria contínua da eficiência das operações e encaminhando para instituições de solidariedade social todos os alimentos não passíveis de serem vendidos, mas que se encontram em condições de segurança alimentar para serem consumidos no imediato.

Em Coimbra, o grupo dá apoio a cinco entidades: a Associação AJPaz – Ação para a Justiça e Paz; a Venerável Ordem 3.ª da Penitência de São Francisco de Assis, a Casa da Infância Dr. Elísio de Moura e a Casa da Criança Santo António e a Obra do Padre Serra.

400 mil novos pobres
gerados pela crise

O desperdício acontece não só em supermercados  ou nas grandes superfícies, mas sobretudo em refeitórios de grandes empresas, quer sejam hospitais, escolas, ou mesmo empresas de catering. Porém, ainda há quem, perante as dificuldades, não vire a cara a um pedido de ajuda.

No mesmo ano em que se comemora o Ano Europeu do Combate à Pobreza e à Exclusão Social, as estimativas apontam para mais 400 mil novos pobres em Portugal gerados pela crise. Mas há rostos e vidas reais por detrás das estatísticas. Às vezes, tão perto de nós.

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