O populismo de uma candidatura

Na entrevista que deu ao Diário As Beiras (13/10/10), o Dr. Fernando Nobre (FN) mostrou que o seu principal adversário é Manuel Alegre (MA), o que, de resto, é compreensível, sendo ele um homem com fortes referências monárquicas e de direita, enquanto MA é um conhecido republicano, socialista e de esquerda.

Se a eleição do Presidente da República é um acto político e de cidadania da maior relevância, importa esclarecer não só os referenciais politico-ideológicos de cada candidato, mas também aquilo que move as respectivas candidaturas.

O Dr. FN lança um ataque a MA assente num conjunto de afirmações e insinuações claramente reveladoras do tipo de referências em que se inspira. Evidencia todo o populismo que subjaz ao senso comum mais ingénuo quando reproduz o velho lema de que “os políticos profissionais” são incompetentes, reivindicando para si a personificação da mudança (ele seria a “lufada de ar fresco”, presume-se) e acusando os actuais protagonistas de estarem no poder há 30 anos, de beneficiarem de reformas “vitalícias” (imagina-se que a sua própria reforma será “a termo certo” como nos contratos de trabalho precários) e de terem chauffeur particular, quando ele próprio é, supostamente, a emanação directa e espontânea da “sociedade civil”, esse nome pomposo que os dirigentes de ONGs gostam de invocar para enaltecerem a sua acção de beneficência (e a importância dos volumosos fundos que gerem).

O pretensiosismo deste discurso demagógico poderia, caso o Dr. FN fosse um candidato para levar a sério, ofender todos os políticos actuais, sejam eles detentores de cargos institucionais ou não. Perdão, todos, não! Porque há um que está acima de qualquer suspeita, sendo citado na entrevista com a devida vénia. FN tece laudas aos exemplos excepcionais de “boa colheita”, ao mesmo tempo que trata Manuel Alegre como candidato de Francisco Louçã e que “traiu o seu próprio partido” (na anterior eleição presidencial). Recorde-se que isto ocorreu quando FN estava ao lado do Dr. Mário Soares e quando a maioria dos eleitores do PS “traíram” o seu partido ao votar em Alegre.

Num momento em que o desfecho das presidenciais de Janeiro do próximo ano está ainda rodeado de incertezas, e quando as sondagens conhecidas têm vindo a revelar um Cavaco Silva (CS) em quebra (apesar de ainda em vantagem) e aproximando-se perigosamente do limiar em que a segunda volta será muito provável, não deixa de ser significativo que o Dr. Fernando Nobre – que já disparou em várias direcções – apareça agora a virar a sua bateria na direcção de MA, ao mesmo tempo que, note-se, suaviza claramente a crítica a CS.

A crise em que o país mergulhou tem vindo, compreensivelmente, a desviar as atenções dos portugueses da questão presidencial, e o momento crítico em que hoje nos encontramos (na iminência de um orçamento que pode ser ou não aprovado) não nos permite fazer prognósticos sobre coisa nenhuma, sendo que quanto mais a conjuntura de curto prazo vier a exigir maior intervenção do actual presidente, mais o resultado da próxima eleição presidencial permanecerá em aberto.

O clima de instabilidade que paira no ar só pode acrescentar incerteza àquilo que já era muito incerto.

Porém, as tiradas do Dr. Fernando Nobre não podem ficar sem resposta, por parte de quem, embora sendo crítico das perversões da democracia e dos aparelhismos partidários, não confunde isso com o ataque generalizado à classe política, como faz FN, seguindo aqui a direita mais conservadora.

Pergunta-se: em que se fundamenta a invocada coerência do Dr. FN, um ex-militante da causa monárquica que ainda há um ano e pouco foi mandatário nacional do Bloco de Esquerda nas eleições europeias e que esteve com Mário Soares na sua malograda candidatura de 2006? Será uma mera coincidência que o discurso macio em relação a Cavaco Silva surja ao mesmo tempo que outras figuras (Mário Soares) se desdobram em elogios ao actual presidente e em apelos ao bloco central?

Nestas circunstâncias, terá a candidatura de FN sido engendrada para mobilizar a esquerda, ou antes o populismo da dita “sociedade civil” contra a esquerda e contra Manuel Alegre?

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