“Sou um homem das regiões”

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P – Venceu as eleições para a Federação por uma margem mínima. Isso incomoda-o?

R – Não. O facto de vencer as eleições é por si só suficiente, dado que permite desenvolver o projeto que tenho para o partido. É evidente que um resultado mais folgado daria condições para desenvolver o projeto de uma forma mais sustentada. Mas este resultado permite-me, se calhar de uma forma mais assertiva, promover a unidade, um objetivo assumido desde o início.

P – As suspeitas de irregularidades levantadas pelo seu opositor dão uma má imagem do partido para o exterior?

R – As suspeitas são, naturalmente, infundadas. Há que perceber que, nestas coisas da política, tal como em tudo na vida, não é fácil perder. Por isso, por vezes, temos reações emocionais despropositadas. Considero que foi mau em termos de imagem e que devia ter-se desenvolvido os procedimentos necessários dentro do partido. Mas cada um é senhor dos seus atos!

P – Justifica-se que o processo continue no Tribunal Constitucional?

R – O desafio que lancei ao dr. Víctor Baptista no congresso foi no sentido de se promover a unidade, por isso não havia razão para não fecharmos este processo! Honestamente, entendo que é melhor para todos que o processo seja resolvido no Tribunal Constitucional.

P – E porquê?

R – A pior coisa que podia acontecer era persistir a suspeita de que alguém tinha cometido irregularidades. Estou plenamente convencido de que a razão me assiste, mas é necessário que a decisão seja tomada para que não haja mácula no processo eleitoral. Aguardo serenamente a decisão.

P – É possível reunir o PS Coimbra depois da fratura resultante destas eleições?

R – Tenho essa ambição e deram-se os primeiros passos para tal. É evidente que a unidade é feita de duas partes. Aquela que a quer e a outra que a aceita. É evidente que unidade não é unicidade e temos que ter a noção de que na unidade existem divergências de opinião e de condução de processos. Mas também tem de haver impulsos de unidade da parte que perdeu. Eu dei o impulso naquilo que é o dever de quem ganha, agora vou ficar atento aos comportamentos das pessoas derrotadas.

P – Os elementos derrotados vão ser chamados a assumir responsabilidades na equipa?

R – Quando fazemos uma lista de unidade, percebemos que há uma predisposição para unir o partido. Mas temos que entender que este processo tem que ser conduzido com a serenidade e a tranquilidade necessárias a essa unidade. Tenho que avaliar se há, da parte de todos, uma predisposição clara e vou escolher aqueles que entendo que são as pessoas mais adequadas para comigo trabalharem no processo de unificação. Relativamente ao órgão executivo do PS em Coimbra não deixarei de ser eu a fazer as escolhas e não permitirei que interfiram nelas. Considero que essa tem de ser a minha forma de atuação e espero que haja o entendimento geral de que irei conduzir a Federação distrital do PS com a equipa que eu entender. Obviamente que nessa escolha não terei que ficar limitado aos meus apoiantes. Se necessário for, não deixarei de tentar encontrar camaradas que não estiveram comigo, mas que são mais-valias e que podem dar um contributo importante à unidade e ao trabalho político.

P – A questão da unidade saiu bem explicada do último congresso?

R – Acredito que tenha resultado alguma confusão com os apoiantes de cada um dos candidatos a acharem que foi feito um mau acordo. Eu, quando entro para o congresso, faço-o numa situação em que tenho o partido estremado naquilo que são as soluções. Inicia-se o congresso com a certeza de que uma das partes não tinha vontade para que se realizasse, dado que tinha um conjunto de procedimentos pendentes no Tribunal Constitucional. Encontrar uma solução para que se pudesse realizar o congresso com o prestígio que o partido merece e onde se pudessem discutir as questões essenciais sem entrar naquilo que era a expectativa na altura de um congresso a ferro e fogo, era essencial. Iniciei esse processo com a adesão do presidente cessante da Federação, dr. Victor Baptista. Por vezes, há nesta leitura política uma vontade de acerto de contas, mas esse não era o espírito com que me candidatei. Há dois anos, defendi que cabe ao vencedor promover a unidade e cabe ao vencido estar disponível para ela. Portanto, não faria sentido que eu, depois de vencer, desenvolvesse os mesmos procedimentos; não querer dialogar, não fazer cedências, não promover a unidade.

P – Unidade significa integração de elementos derrotados nos órgãos da Federação?

R – A questão da composição dos órgãos só é possível, porque permite desta forma pacificar o partido sem que nenhuma das partes perca a sua independência ou seja prejudicada. Eu ia entrar para o congresso supostamente numa situação de perda por causa do número de inerências e saio numa situação de mais um delegado. É evidente que isto depois não tem concretização prática. Mas foi essencial para mim que os meus apoiantes entendessem que andámos durante dois anos a defender a unidade, a sentirmo-nos prejudicados por ninguém ter vindo falar connosco no sentido de encontrar a pacificação interna. Agora, não podíamos agir da mesma forma e ir contra as nossas convicções. Considero que foi um passo decisivo para garantir um congresso com prestígio e para constituir a Comissão Política, que é quem vai gerir, a nível do partido, uma boa parte das suas políticas.

P – Mas quem vence é quem manda?

R – Naturalmente. A partir daqui, a execução das políticas e do projeto que ganhou cabe à minha pessoa. E nesse sentido não haverá nenhum desvio. O necessário agora é desenvolver o projeto que eu defendi em conjunto com a minha equipa. Há aqui processos que têm que ser trabalhados. Tenho que ver quem esteve comigo para contribuir para essa unidade e quem está meramente para “fazer de conta”.

P – O acordo em nome da unidade também limpa a má imagem que os seus opositores terão passado para o exterior?

R – A má imagem que refere, ou aquilo que ocorreu antes do início do congresso, não dignifica em nada o partido. O eleitor não quer saber se foi A ou B que contribuiu para isso. Por isso, o limpar da imagem do partido é positivo e não a questão dos seus agentes. Esses terão um trabalho, que só a eles cabe, de mostrar que mudaram e que têm uma atitude diferente, mais responsável, mais contida e mais disponível para aquela que é uma imagem do partido credível e séria.

P – O que vai mudar na Federação Distrital do PS Coimbra?

R – Só o tempo o poderá dizer. A minha convicção é que, sendo duas formas diferentes de estar na política, o resultado será necessariamente diferente. Tivemos um modelo mais emocional, mais agressivo naquilo que é a forma de fazer política. E temos agora um modelo mais racional e mais sereno, que também me permite, se calhar de uma forma mais fácil, promover a unidade no partido. É importante que quem lidera não se deixe incorporar daqueles que são às vezes os vícios do sistema e se deixe manipular por comportamentos emocionais dos que lhe são próximos.

P – Quais são as prioridades?

R – As prioridades, a nível da reorganização do partido, vão no sentido de criar um espírito de equipa. E quando digo equipa refiro-me aos que me apoiaram e aos que estiveram do outro lado. Reorganizar o partido naquilo que é a essência da sua intervenção política designadamente, prepará-lo para as autárquicas e para os combates eleitorais que aí vêm.

P – Considera importante debater as questões concelho a concelho?

R – Entendo que é determinante que o líder da Federação desenvolva novos procedimentos para estar identificado com as expetativas de cada concelho. Para isso, necessita de articular com cada concelhia para perceber as preocupações de cada concelho e encontrar as soluções para os problemas existentes.

P – Que ambição assume para as próximas autárquicas?

R – As ambições de qualquer líder de uma Federação é vencer. Portanto, de certa forma, a ambição é que nós possamos manter as autarquias que já temos e conquistar outras em que eu acho que o PS tem condições de o fazer.

P – Recuperar a câmara de Coimbra é uma delas?

R – Sem dúvida que é uma prioridade.

P – Mas tem consciência que assume o partido numa altura em que o PS, sendo Governo, tem uma imagem muito desgastada?

R – Tenho a noção de que neste momento o Governo do PS tem desenvolvido um conjunto de políticas que, em muitos casos, não são medidas populares, pois têm como objetivo final enfrentar a crise e preparar o futuro. Mas também tenho noção de que o eleitorado já tem maturidade suficiente para distinguir aquelas que são as posições relativamente às escolhas para as legislativas e para as autárquicas. Por isso, também para a Câmara de Coimbra, e em função do candidato que encontrarmos, será possível que o eleitorado não faça essa identificação.

P – Que tipo de candidato gostaria de ver na Câmara de Coimbra?

R – Esse é um debate que terá que ser feito na própria Concelhia do PS de Coimbra. Mas considero que ainda é cedo.

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