“Os HUC têm a melhor equipa de anestesistas do mundo”

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José Martins Nunes estudou em Coimbra, fez toda a sua carreira nos HUC que conhece como poucos. Diretor do serviço desde 2005, também guarda na bagagem uma passagem pelo estrangeiro e pela secretário de Estado da Saúde.

P – Porquê o Dia Mundial da Anestesiologia?

R – O Dia Mundial da Anestesiologia é um momento muito importante porque ele comemora e lembra-nos o primeiro dia em que foi aplicada a anestesia no mundo e que foi no dia 16 de Outubro de 1846.

P – O que havia até aí?

R – Até aí as cirurgias eram feitas quase a “sangue frio”. Havia quatro ou cinco medicamentos para debelar ligeiramente a dor. Uma cirurgia antes de 1846 tinha um cirurgião-chefe, uma pessoa que o ajudava e mais seis pessoas para segurar o doente. No dia 16 de Outubro de 1846 o dentista William Thomas Morton apresentou uma descoberta – que depois veio a descobrir-se não ser dele – que era o éter sulfúrico. Três meses antes, um sócio do Morton, Horace Wels, tinha feito uma experiência com um protóxido de azoto, um gás que se pensava ter algum poder de analgia, e tinha. Criou uma empresa chamada “Circo do riso” e percorreu os EUA. Num desses espetáculos, os doentes caíram, fizeram uns cortes e não sentiram dores. Confirmava-se assim o poder analgésico daquele gás.

P – De que forma contribuiu a anestesia para o desenvolvimento da medicina moderna?

R – Esse é um grande marco para a humanidade. A anestesia teve um percurso grande que começou com o éter e com o clorofórmio na Europa. Desde então, a evolução não mais parou com a anestesia a ligar-se ao desenvolvimento de praticamente todas as áreas da Medicina.

P – Quais são essas áreas?

R – A analgesia – o tratamento da dor crónica e aguda (pós operatória); a Medicina Intensiva – os cuidados intensivos, a chamada Medicina Perioperatória que significa anestesia dentro do bloco operatório e a Emergência Médica são as áreas de grande expansão. Mas a anestesia preocupou-se sempre com uma questão fundamental que está na ordem do dia e que é a segurança do doente. Tornou-se depois numa disciplina académica e aí por volta de 1945-50 apareceram os primeiros serviços de anestesia no mundo, nos Estados Unidos.

P – Quando foram criados os serviços nos HUC?

R – Em 1972 o diretor do hospital pediu ao professor Fernando Serra de Oliveira para iniciar um conjunto de formalidades com vista à futura constituição de um Serviço Central de Anestesiologia que já existia no Porto e em Lisboa. O serviço acaba por ser criado em 1975 o Serviço de Anestesia dos HUC em que foi primeiro diretor o dr. Carlos Tenreiro.

P – Todos os hospitais têm esse serviço?

R – Praticamente todos os hospitais têm esse serviço. Embora, às vezes sem os recursos necessários…

P – Há falta de anestesistas?

R – Nós neste momento temos um défice, mas estamos a formar no máximo da capacidade. O país está a formar uma média de 50 a 60 anestesistas por ano.

P – Não são suficientes?

R – Eles eram suficientes mas o que aconteceu é que houve muitas reformas antecipadas. Penso que dentro de cinco anos teremos as coisas mais ou menos equilibradas, pois aqueles que estavam próximos da reforma já saíram. Depois, com os novos anestesistas, as coisas ficarão mesmo equilibradas. Nós, aqui nos HUC, temos 54 anestesistas porque se reformaram agora três.

P – Trata-se de uma especialidade que cativa os jovens?

R – Hoje a presença da anestesia nas áreas mais importantes da Medicina, as novas tecnologias, a inovação e tudo quanto hoje existe à volta da especialidade, o equipamento de altíssima fidelidade, os parâmetros de regulação de altíssima fidelidade. Tudo isso também motiva os jovens para a especialidade. O que acontece é que só na Faculdade de Medicina de Lisboa é que existe a cadeira de anestesiologia. Portanto, considero que o passo mais importante a dar em Portugal é a anestesiologia fazer parte da formação pré-graduada, de Medicina. Porque o que aconteceu comigo e com a generalidade dos médicos que entraram em Anestesiologia é que nós não sabíamos o que era durante o curso. Hoje em Coimbra, começa-se a dar os primeiros passos. Eu dou as aulas de anestesia na cadeira de Patologia Cirúrgica. Portugal tem profissionais de altíssima qualidade na área da anestesia ao nível do melhor que há no mundo que dão um contributo único em questões tão importantes como a cidadania.

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